Broken Relationships

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Ao lado de um pequeno pote amarelo de plástico, a placa melancólica anuncia, sem frescura, a utilidade do objeto: um guardador de lágrimas. Sem nem uma gota restante, completamente seco, o utensílio conta melhor a história desse jeito mesmo. Vazio.

A poucos metros de distância, um rolo de filme não terminado se perde na imensidão branca do móvel em que foi colocado. Os raros momentos registrados e nunca revelados foram deixados ali, como memória pública, por uma garota que aos 18 anos se apaixonou por um par de olhos azuis. Os olhos a faziam se sentir nadando num infinito e agradável oceano, mas, assim como o pote de lágrimas da outra pessoa, aquele mar também secou. E ainda que o registro tenha sido feito, as imagens daquela história nunca mereceram virar fotografia.

As bandeiras de oração tibetanas, tão simbólicas na relação entre uma moça turca e um rapaz croata, foram a única sobra do amor que nasceu no primeiro eclipse lunar de 2011 e não conseguiu durar nem seis meses, até a lua se esconder de novo.

O livro I Can Make You Thin traz na capa um homem cínico com um sorriso tão irônico quanto a explicação da mulher inglesa: "Esse livro foi presente do meu ex-noivo. Preciso dizer algo mais?" Antigamente as pessoas queriam se fazer felizes. Agora, querem se fazer magras.

Protegido por um pequeno vidro, o cartão postal da senhora nascida na Armênia relembra uma história que os 70 anos de idade dela não foram capazes de apagar do pensamento diário. Muito tempo atrás, quase tanto quanto se fosse em outra vida, o filho do vizinho, apaixonado, deixou o cartão na porta da casa da então moça. Como mandava a tradição armênia, os pais dele foram pedir permissão para a relação, mas os pais dela negaram. Na mesma noite o rapaz se jogou de um precipício. Sobraram dele apenas o cartão postal e a tragédia, que a velhinha decidiu agora dividir com o resto do mundo.

A esses se somaram tantos outros objetos e tantas outras histórias. De corações rasgados. De relações terminadas. A vida real transformada em museu. Sem final feliz.

Visitei hoje esse museu no norte da Inglaterra e fiquei pensando em todas as outras relações que as pessoas destroem diariamente. A confiança de um amigo. A cumplicidade de um irmão. A admiração de um pai. Tudo o que mais importa é invisível e frágil demais para que as pessoas percebam quando perdem. Em troca, gastam tempo com coisas grandes e palpáveis que, na verdade, não valem muito.

Outro dia levei a japs pra ver um filme muito bom que mistura dramatização com relatos reais para contar a (por aqui famosa) história de Joyce Vincent. A inglesa de 38 anos morreu em 2003 na sala de casa e só foi encontrada 3 anos depois. A televisão e o aquecimento estavam ligados. A moça, sentada no sofá, estava rodeada de presentes de natal que nunca foram entregues. A energia elétrica não tinha sido cortada em todo esse tempo, apesar da falta de pagamento. O apartamento, com o aluguel atrasado, só foi reclamado de volta em 2006. Por isso o imóvel foi invadido e encontraram o cadáver, ou melhor, os ossos e o vestido que sobraram inteiros. Mas o que impressiona não é o apartamento, a luz ou gás esquecidos. É a pessoa. A mulher de quem ninguém parece ter sentido falta por três anos. A colega de trabalho, a filha, a amiga, a irmã. Um alguém que não apareceu, não entregou os presentes de natal e nem telefonou mais. Não deu notícias, não reclamou, não perguntou, não saiu, não fez nada. E ninguém estranhou. De todas as histórias, de todas as tragédias pessoais, de todas as relações encerradas que já conheci ou ouvi falar, pouco me tocou tanto quanto a partida despercebida da pobre Joyce Vincent. Ela ficou morta por tanto tempo sem que ninguém soubesse, que provavelmente ninguém chorou quando soube.

Não é que ninguém tenha se importado com o fenômeno da morte. É que ninguém percebeu em tempo o absurdo da vida.














Museum of Broken Relationships - National Centre for Craft and Design - Sleaford - Inglaterra (+ ou  - 2 horas de distância de Londres);


Dreams of a Life, a film by Carol Morely, 2011 (até agora só deve ter saído no Reino Unido).

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Esse é um post relâmpago. Provavelmente terá erros de português e com certeza ficará incompleto. Entrei no trem e descobri que ganhei 15 minutos de internet. Quando faltava quase um terço do tempo, achei que seria uma boa postar. Comecei a escrever com apenas o tempo do título restando. Agora só faltam 4 minutos. Tem faltado tempo pra escrever aqui e também pra ler os blogs dos amigos. E também faltou tempo pra explicar. Tive meu celular roubado. Meu primeiro roubo no velho continente. Tô bem feliz por essa estréia. Caramba, só faltam 3 minutos. Tem dois caras do meu lado. Um inglês do interior e um indiano que fica me encarando. Perguntei pro indiano se estou bonito e ele ficou sem resposta. Agora ele e o inglês caipira estão em silência, olhando um pro outro enquanto eu escrevo correndo. Será uma viagem longa. Tô indo pro interior trabalhar. Provavelmente vou descer na terra do inglês caipira e vou levar um pau dos amigos dele. Vamos ver... ;) Mas ele já é coroa e tá vestindo um terno bacana. Acho que não vai acontecer nada. E o indiano é baixinho e usa um terno horrível. Marrom. Ninguém deveria usar terno marrom. Porra, a internet vai acabar. Não vai dar mais tem...

A banda do colégio

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Outro dia, quando eu ainda era estudante do primeiro grau numa escola pública de São Paulo, decidi entrar para a banda do colégio. A molecada passava muito tempo reunida para os ensaios e às vezes alguém soltava uma pérola - muito ridícula ou muito engraçada - e todo mundo começava a repetir a frase. Primeiro, pra sacanear. Depois, por inércia. A gente ouvia tanto, que simplesmente repetia. Essas pérolas se juntavam às de outros grupos e também às piadas que os alunos aprendiam em casa e às lendas gerais - como a da loira do banheiro ou a do sujeito que ninguém nunca viu, mas que todos juravam andar pelo bairro usando uma seringa para ´aplicar´ AIDS nas pessoas - e formavam o imenso folclore da escola. A vantagem de ser da banda, além do prazer da música, era viajar até cidades próximas para os festivais e competições. Nesses encontros, três coisas sempre me chamavam a atenção: as meninas do nosso colégio eram mais bonitas; a música dos outros era melhor; e todos nós contávamos as mesmas piadas e lendas. Parecia que era um patrimônio comum das escolas públicas. O detalhe é que as piadas internas e as pequenas sacadas do dia a dia continuavam absolutamente particulares. Cada banda tinha as suas. Naquele tempo, a identidade única do folclore de cada turma estava bem protegida pelos muros das escolas.

Foi mais ou menos nessa mesma época que começou a fazer sucesso o que chamavam de pagode. Juntavam lá quatro ou cinco amigos, criavam um estilo visual pra marcar, como um par de óculos escuros na cabeça careca, e cantavam letras românticas ou engraçadas. As músicas eram geralmente parecidas - e eram ruins - mas pegavam com força porque faziam dançar ou faziam chorar. As meninas ficavam apaixonadas pelos artistas e dançavam animadas enquanto os meninos viam os passos das colegas e se apaixonavam por elas. E quando o romance não acontecia, eles ou elas iam pro canto suspirar com as músicas lentas e fracas que falavam de fins de relacionamento e de dores de corno em geral. Ainda não existia essa internet que temos hoje, mas o rádio dava conta de espalhar a porcaria e não havia uma só escola onde a moda não fosse a mesma.

Confesso que com os anos morri de saudade dos meus amigos daquela época e por vezes me escondi pra ouvir, sozinho e com o coração apertado, alguns dos terríveis pagodes antigos. O tempo passa e a gente aprende a selecionar melhor o que ouve, mas o som é uma experiência que marca a memória e, se há um momento bom para ser lembrado, ele é bem-vindo ainda que seja dançando música ruim.

Quando se espalhou essa coisa de rede social, tive a chance de reencontrar vários dos bons amigos de infância. Encontrar de verdade, ao vivo, como adultos bebendo propriamente num bar, e não tomando toddynho na sala de instrumentos da banda do colégio. O detalhe é que, tanto aqui quanto lá, contamos e rimos e nos divertimos com as mesmas situações. Não com a loira do banheiro ou com as anedotas de Joãozinho que faziam sucesso quando éramos crianças, mas com as nossas piadas internas e outros momentos que fizeram de nós e da nossa amizade algo único no mundo inteiro. 

O que a internet também trouxe, além dos velhos amigos, foi um trator enorme que destruiu os muros de todos os colégios. As piadas internas ficaram sem proteção e o gosto da maioria pela música ruim ficou exposto. Isso não deveria ser um grande problema. Basta olhar pra trás e você vai perceber que faz isso desde sempre: rir de coisas bobas e dançar o som da moda. A internet, que reuniu a gente, trouxe ainda outra bobagem dos tempos de escola: as brigas sem motivo. Em ambas as épocas, independentemente da moda, os gostos são diferentes. Alguém sempre vai ter coragem de fugir do padrão e levantar a mão pra dizer ´Porra, a qualidade disso aí é fraca!´ ou então ´Puta piada sem graça! Já deu, né?´ Mas não tem jeito. Nós somos hoje a mesma pessoa que foi criança e que curtiu tudo isso anos atrás. E, se vivemos reclamando da vida dura, dos compromissos, das contas e do trabalho; e vez ou outra nos pegamos pensando em como tudo era mais fácil e melhor na infância, por que, afinal, nos proibiríamos de curtir o que de alguma forma nos causa sensações semelhantes às daquele tempo tão bom?

O mundo tem problemas demais e a gente precisa falar deles, explicá-los do melhor jeito possível para quem não entende e tentar resolvê-los juntos. Mas até o mais responsável dos jornais tem palavras cruzadas, charges, tirinhas e horóscopo. Porque não dá pra ser sério o tempo todo. E também não dá pra só ouvir música boa e nem é possível deixar de repetir o que achamos engraçado. Por mais bobo que seja. Toda pessoa precisa de um passatempo, um alívio pra fugir da chateação e do peso que é a vida. Tem gente que joga videogame, assiste ao futebol, UFC, novela, reallity show... Tem quem leia livros, estude, faça sexo, encha a cara, salte de paraquedas, pegue onda, corra maratona. Quando a gente faz essas coisas, não estamos necessariamente acrescentando algo à vida dos outros. E talvez também não estejamos acrescentando à nossa. Talvez. Mas precisamos desse escape da rotina, de um pouco de humor e descontração. É a nossa droga cotidiana. No momento em que pegamos o controle remoto, algo nos deixa no mesmo nível do viciado que fuma uma pedra na cracolândia: estamos todos no mesmo barco, procurando uma alucinação, um mundo paralelo para fugir por instantes da difícil realidade.

Talvez as pessoas nem repitam tanto assim as coisas na rede social. Acho que cada um só conta a piada uma única vez. O problema é que a gente quer ter tantos amigos que, se cada um disser a frase uma vez, vamos ter que ler a mesma porcaria 5 mil vezes. O que se tornará 10 mil, já que a outra metade dos amigos vai usar as mesmas palavras para reclamar do que foi dito. O tempo que a gente perde criticando o povo por se divertir poderia ser aproveitado para tratar dos problemas do mundo ou, na pior das hipóteses, para criticar quem é pago para resolvê-los.

Ninguém é imbecil por repetir a piada da moda. Estamos ficando, sim, menos interessantes. Vejo duas soluções pra mudar a chateação que vivemos online. A primeira é muito simples: desligar a porra do computador, esquecer os amigos tontos e ir cuidar da vida; A outra custa mais, mas o prêmio é melhor. É pensar um pouco antes de repetir tudo e se esforçar pra dizer coisas mais raras e inteligentes. Não precisa ser sério pra ser bacana. Piada já foi coisa boa, quando era original.

Pelo menos naquela época da escola, não eram as melhores garotas nem a pior música que faziam da nossa banda especial. Era a nossa personalidade.


PS: a foto lá em cima foi emprestada de um site colombiano. Na minha infância não existia máquina digital e custava caro revelar filme. Agora até a Kodak já faliu... Será que passou muito tempo? ;)

Para mau entendendor

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Esse é dos grandes, mas talvez valha enfrentar a preguiça...

No meio das muitas notícias sobre o navio que afundou ontem, achei escondida uma notinha dizendo que naufragou, por enquanto, o acordo pra acabar com metade da dívida da Grécia. Caso você não tenha lido com atenção, ou não soubesse antes, vou repetir: existia um pré-acordo para write off - reduzir a zero, cancelar, fazer deixar de existir - 50% da dívida externa da Grécia!!!

Ok, e daí? Daí que - tirem as crianças da sala - Papai Noel não existe! Nada é de graça no mundo! Como é que se cancela assim um débito de alguns bilhões de euros? Alguém já cancelou uma dívida sua com o banco, com as Casas Bahia ou com a quitanda da esquina onde você compra fiado? Faz tempo que tá rolando essa negociação pra salvar os gregos do buraco, mas resolvi falar sobre isso agora porque vejo que o tempo passa e ninguém repercute. E se ninguém repercute uma coisa dessas, é porque não sabe ou - pior - não entende.  Geralmente fico chateado com o fato de as pessoas viverem anestesiadas da realidade, mas às vezes percebo que, no fundo, os anestesistas é que são bons. É muito injusto o jeito que se fala de economia. As pessoas normais mal conseguem equilibrar o orçamento doméstico. Como é que vão ler uma notícia com mais zeros do que são capazes de contar e entender tudo? O cidadão comum é tão acostumado a ouvir falar de finanças e não absorver nada que, quando dá de cara com uma informação grave dessas, tem certeza de que entendeu errado. Para a maioria das pessoas, falar em economia é falar grego. Mesmo!

Tentando aportuguesar, é o seguinte: João trabalha todo dia, de sol a sol, guarda uma graninha e coloca 100 reais na poupança no banco da cidade. O vizinho, José, tá numa dureza danada e faz o caminho contrário: vai até o banco pegar uma grana emprestada. Por coincidência, o mesmo valor. Pra guardar o dinheiro de João, o banco, generoso, vai pagar a ele R$0,60 (sessenta centavos) de juros por mês. Pra emprestar o dinheiro a José, o banco vai cobrar dele R9,00 (nove reais) por mês. O banco não precisou botar a mão no bolso, porque, se você não percebeu, emprestou o dinheiro de um para o outro. A cidade está cheia de outras pessoas que, como João, depositam algumas economias no banco. E também tem mais, muito mais, endividados como José. O banco, muito bacana, vê nisso uma ótima oportunidade de ajudar e resolve facilitar ainda mais o acesso aos empréstimos. Abre linhas de crédito, anuncia na tv, manda correspondência... tudo dizendo que o cliente só precisa pedir e terá o dinheiro na mão. É o fim dos problemas! O povo fica feliz e começa a usar daquele serviço generoso e salvador. Ao contrário de José, que só queria a grana pra pagar as despesas extras do começo do ano, os outros pedem empréstimos para comprar uma tv gigante novinha, um carro zero, uma moto e, os mais ousados, compram logo a sonhada casa própria. Eles só esqueceram de pensar nos números com calma e não se deram conta de que os juros que vão pagar não são baixos como os que João recebe do banco. São, na verdade, tão ou mais altos do que os que José paga mensalmente. Com dívidas pelo resto da vida, a casa que compraram será tudo, menos própria.

O negócio dos empréstimos era atraente para as pessoas e lucrativo para o banco. Com o tempo, o número de clientes gastões, como José, superou imensamente o de poupadores, como João. O banco já não tinha mais como emprestar dinheiro de um freguês para o outro, mas não queria perder o bom momento. Assim, o banqueiro vestiu aquele terno bonito e foi até o país vizinho, muito mais rico, e pediu dinheiro emprestado ao dono de um banco bem maior. Daí voltou pra cidade cheio da grana e continuou emprestando às custas dos outros. Alguns anos depois, o pessoal que tinha feito empréstimo começou a ficar duro de novo. Os juros que pagavam eram muito maiores do que os reajustes salariais que recebiam. E outros nem salário tinham, já que perderam o emprego. O jeito era emprestar mais dinheiro do banco pra pagar os primeiros empréstimos. Nessa época a demanda era tão grande, que o banco já não tinha mais como continuar ajudando a população com aquele serviço tão nobre e caridoso. Uma auditoria revelou que o banco, assim como João e a maior parte do povo, devia muito mais do que era capaz de pagar. Deu uma crise desgraçada na cidade, começaram a noticiar no jornal e o cidadão, alheio e endividado, não entendia nada. O governo decidiu intervir para conter a crise. Mas, como os cofres públicos não tinham tanto dinheiro assim, não daria pra ajudar todo mundo. Então o governo escolheu ajudar só o banco. Afinal, a dívida de cada cidadão era pequena, se comparada à do banqueiro. Cada um que se virasse. O governo, cheio de crédito no exterior, foi até um banco maior ainda, o fodão de todos os bancos, e voltou com uma puta bolada. Comprou a dívida do banco da cidade, transformou o banco quase falido num bem público e deixou que tudo continuasse como antes: os empréstimos, os juros, os endividamentos...

Calma aí que já vai acabar.

É importante lembrar que aquele era apenas um banco de uma cidade. Havia mais um monte de instituições parecidas espalhadas pelo país. Para ajudar todas que se viram penduradas, o governo fez muitas outras dívidas com aquele banco internacional fodão. Mas o governo era esperto e não queria dever pra um lugar só, então começou a vender o que chamou de títulos da dívida pública, ou seja, papéis que valem um preço hoje e valerão muito mais daqui a dois anos. Em outras palavras, o governo começou a vender juros e se transformou, ele mesmo, num banco. Os investidores estrangeiros compraram aos montes, porque os juros eram bons e, pô, estamos falando do governo. Pagador melhor não há. É dinheiro certo! Não tem calote! Mas o tempo passou e algo saiu errado. O povo continuava endividado e não tinha condições de pagar os bancos. Os bancos seguiam emprestando irresponsavelmente e pedindo mais dinheiro de fora. O governo permanecia vendendo juros e salvando os bancos e também se viu num buraco. Quando os estrangeiros perceberam que o tão poderoso governo poderia dar um calote naquela dívida enorme que fizera com eles, a coisa ficou tensa. Inventaram as chamadas agências de risco, que basicamente dizem para o mundo quem é e quem não é bom pagador. Quanto mais caloteiro em potencial for um governo, pior a avaliação dele. E quanto pior a avaliação, maior os juros que ele tem que pagar pelos empréstimos. É como se o José, que pagava juros de R$9 a cada R$100 emprestados, precisasse agora pagar R$15 a cada R$100, como castigo por ser mau pagador.

Só mais um pouco, juro.

Diante daquele caos, o governo ameaçou não pagar ninguém. Já tava todo ferrado mesmo, que se dane. Ninguém pode prender o governo, então não ia mudar muita coisa. Mas se o governo caísse em desgraça, os outros países que usavam a mesma moeda também iriam se dar mal. É como se a América do Sul inteira usasse o real e o valor da moeda despencasse para todos porque um governo deu calote. Não, os vizinhos precisavam evitar isso. Todos se reuniram, chamaram seus empresários e bancos fodões e botaram as cartas na mesa: "Seguinte, pessoal. Vocês já ganharam muito às custas de todo mundo aí. Agora é hora de entubar um pouco de prejuízo. Fulano, a partir de amanhã, o bilhão que o governo te deve vira 500 milhões, ok? E isso vai ser voluntário, ninguém tá te forçando. Vamos todos perdoar metade da dívida do governo, numa boa, por vontade própria, pra roda continuar girando. Fechado? Depois a gente se junta aqui, arranja mais um pouco de grana emprestada pra eles e mantém tudo funcionando com está."

No fim daquele ano, os banqueiros e empresários estrangeiros ainda discutiam se deveriam ou não perdoar a dívida. A negociação estava difícil, tinha altos e baixos, mas acabaria dando certo. O governo continuou vendendo juros e salvando os bancos. Eventualmente, também fez negociações para perdoar e/ou amenizar débitos de impostos de grandes empresas com a Receita Federal. Os administradores das empresas que não pagaram impostos e os diretores dos bancos que foderam o país tiveram uma ceia gorda ao receber bônus milionários de seus patrões, às custas do povo. José recebia diariamente cartas de cobrança e telefonemas ameaçadores para pagar a sua dívida no banco e nas lojas de departamentos. A gerente riu da cara dele, quando o pobre homem foi perguntar se não havia uma forma de negociar os juros. Ele não viu - e, se viu, não entendeu - que o governo salvou os bancos e que metade da dívida de ambos poderia ser perdoada pelos estrangeiros. João, nosso cidadão consciente que começou essa história poupando e que ajudou indiretamente o vizinho José, os bancos e o governo, acabou ficando um pouco apertado devido à inflação, que era muito maior do que o seu salário. Ele raspou a poupança, mas ainda assim não deu conta de pagar todos os impostos naquele ano. João foi multado por sonegação e nem conseguiu pegar empréstimo no banco, porque era um péssimo cidadão, com o nome sujo na praça.

Moral da história: nós somos um bando de otários!

A dama e o cientista

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Ontem fomos ao cinema assistir ao recém-lançado The Iron Lady, o filme sobre Margaret Thatcher. Como não acredito em críticas de arte, vou guardar pra mim as impressões que tive sobre a obra, as atuações, etc.. Mas acho que vale um dedinho de prosa sobre as reflexões que se pode tirar dessa história. E que ninguém se preocupe: não vou contar o final!

Como bem observou um amigo jornalista que assistiu à Première aqui em Londres, esse é, sobretudo, um filme sobre a velhice. Poucas vezes vi na tela algo que retratasse de forma tão honesta a chegada da senilidade, a perda da memória e os diversos problemas de um corpo antigo demais. A ex-primeira-ministra do Reino Unido é retratada no cinema como é hoje na vida real - uma velha de 86 anos que esquece as coisas e tem alucinações ocasionais. Curiosamente, na mesma semana do lançamento do filme, cientistas britânicos publicaram o resultado de uma pesquisa interessante: o cérebro humano começa a se deteriorar por volta dos 45 anos de idade, e não aos 60, como se acreditava antes. Em outras palavras, estamos ficando gagás mais cedo.

Das coisas que não adianta lutar contra, o desgaste e as doenças da mente devem estar no topo da lista. Ou não. Hoje fez 70 anos um dos grandes milagres da atualidade: Stephen Hawking, aquele astrofísico que todo mundo já deve ter visto, com o corpo torto e imóvel sentado numa cadeira de rodas. Um cara que aos 21 anos foi diagnosticado com uma doença que destruiria seu cérebro rapidamente, lhe tiraria todos os movimentos do corpo e - disseram os médicos na época - o mataria em poucos anos. Mas ele sobreviveu por quase meio século depois disso, se comunica apenas por meio de um computador e ainda assim escreveu vários livros, desenvolveu importantes teorias sobre o universo e é considerado por muitos o cientista mais famoso do mundo.

Infelizmente não conheci esse homem - e nem acho que terei a honra nessa vida -, mas ao longo dos anos tenho tido o prazer de conhecer um bom punhado de pessoas brilhantes. E as melhores não são os gênios prontos, capazes de jogar xadrez aos 3 anos de idade, mas sim os humildes que têm a calma de olhar para o mundo e pensar sobre as coisas. Quem entende, com ou sem pesquisa, que o corpo é perecível e que vai deixar de funcionar em algum momento, consegue aproveitar o pico das funções mentais pra se ocupar das coisas que valem a pena, e não das banalidades.

Recentemente os loucos ficaram mais populares. Parece que tá na moda ser biruta. Estive no hospício algumas vezes quando criança, pra visitar uma pessoa querida, mas agora já vejo gente da minha idade perdendo seriamente o juízo. Ano passado, um conhecido meu, rapaz novo, endoidou. Não aguentou a pressão do nosso tempo, as cobranças, as vaidades... e surtou. Quando ouvi a notícia, fiquei mais chocado pelo motivo do que pelo loucura em si. A gente perde muitos neurônios com coisas que não importam. É bom ter conforto e ser feliz trabalhando em algo, mas isso não pode ser a finalidade da vida. Quer dizer, pode; mas é um desperdício. Ser diretor de banco, presidente de multinacional, artista ou jornalista de sucesso representa o que para o mundo? Nada! É só um trabalho que alguém tem que fazer, com o mesmo valor que tem construir muros ou varrer ruas. Quando o cérebro deixar de funcionar, todos vão ter acrescentado pouco ou coisa nenhuma para a vida das outras pessoas. Será que vale a pena gastar toda a  capacidade mental apenas pra alimentar o ego e a barriga e depois terminar a vida tendo usado a inteligência pra engordar e se enganar?

No filme da Thatcher, a dama de ferro da Grã Bretanha esquece algumas vezes que não é mais a primeira-ministra. Ainda assim, tive a impressão de que a primeira e única mulher a comandar o país, a pessoa controversa que enfrentou uma sociedade machista e mudou os rumos de uma economia derrubada, talvez não sinta tanto assim a falta do poder. Ela se dedicou à política e a um ideal de nação - e será eternamente lembrada por isso, por amigos e inimigos -, mas essa lembrança é só a memória dos outros. Na dela, hoje tão frágil, parecem ter mais espaço as coisas e pessoas que realmente importaram na existência da mulher.

Quanto ao cientista, comentei antes que a sobrevida dele era milagre. Claro que foi força de expressão. Nem eu acredito em milagre e muito menos acredita nisso um homem das ciências como ele. Mas duvido que mesmo o astrofísico, com toda a sua genialidade, tenha uma explicação boa o bastante pro absurdo da própria situação. De qualquer forma, eis um pedacinho da filosofia do professor Hawking:

"Lembre-se de olhar pras estrelas no alto, e não pros seus pés no chão. Tente achar sentido no que você vê e imagine o que faz o universo existir. Seja curioso e, não importa o quão difícil a vida possa parecer, tem sempre algo que você pode fazer com sucesso. O importante é não desistir."


Três falhas

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Salve, gorducho!

Falei de você ontem com a patroa e deu vontade de escrever. Contei pra ela do absurdo que é um safado como você adorar casamentos. Sempre lembro de quando você se separou da sua primeira noiva. Já deve fazer uns 15 anos, mas é difícil esquecer. Foi tão bom ter meu amigo com mais tempo livre. Eu queria que durasse muito, mas durou quase nada. Foram alguns meses, eu acho, embora a sensação é de que não passou de uma noite. Aquela em que você me buscou em casa pra irmos juntos à festa do Zé. Você parecia tão feliz e eufórico pela solteirice e eu fiquei cheio de esperança de curtir por muito tempo aquela sensação contigo. Estava tocando uma música dessas bonitas que deixam a gente tanto alegres quanto tristes, dependendo da nossa disposição. A sua logo ficou clara quando vi que você cantava sorrindo enquanto seus olhos pareciam confusos. Foi ali que comecei a aprender a ler os seus sinais e a enxergar além do que você mostrava. Mas, na ocasião, nem eu estava pronto pra entender que a euforia era sua forma de disfarçar uma certa tristeza por estar solteiro. Afinal, toda pessoa tem uma aptidão na vida e você é o cara que casa. Foi provavelmente esse misto de alegria e nostalgia que te levou a exagerar na festa e ir à nocaute antes do fim. Ainda morro de rir quando lembro da gente espancando a porta do banheiro até que você lá dentro encontrou a calma necessária pra controlar a situação "Tá tudo bem, pessoal. Eu tô passando mal, mas já botei tudo pra fora e agora tô aqui no chão numa boa." Não sei como você conseguiu destrancar a porta e sei menos ainda como fui capaz de carregar até a sala a sua cabeça pesada - a parte que me coube no trabalho coletivo de resgate. Te colocamos no chão com umas almofadas e lá você dormiu, com o cachorro do Zé lambendo sua cara. Voltei pra casa de carona com outra pessoa, mas foi um trajeto chato. Eu esperava ansioso o momento de entrarmos no carro de novo pra poder ouvir um pouco mais do seu entusiasmo e das bobagens que você sempre fala. Mas naquela noite você não teve condições. Eu voltei pra casa sem meu amigo. Foi sua primeira falha comigo.

Você casou alguns meses depois e eu dei lá o meu jeito de fazer parte da sua nova família. Aquele foi um período bom, porque passamos muito tempo juntos. Eu estava sempre na sua casa e tinha a oportunidade de te sacanear mais vezes. Avacalhava sua comida, sua barriga, sua cabeça enorme e suas bochechas vermelhas. Quando penso numa risada que dá vontade de rir, é a sua. Você parece que ri do fundo de todos os sentimentos com uma sinceridade enorme. Deve ser por isso que sua cara fica tão vermelha. O sangue sai todo do coração e vai circular onde se forma o sorriso. E o seu é tão incrível, que as mulheres, inocentes, não resistem. Você se separou e, antes que eu pudesse ter aquela única noite de bagunça com meu amigo solteiro, o safado já estava enrolado de novo. Dessa vez ficou mais fácil participar da sua vida após o casamento, já que trabalhávamos todos nos mesmo lugar: você, ela e eu. Mas você gosta de trabalho mais do que deveria e, com sua mania de se achar incansável nos seus dois empregos, quase explodiu. Tive raiva quando te vi cair doente. Porque você sabe cuidar tão bem de todo mundo; dos seus pais e irmãos, da sua mulher, da sua filha, dos seus amigos... mas não consegue enfiar nessa cabeça gorda que é importante cuidar da porra da própria saúde! Na noite em que foi para o hospital com a pressão no céu e o coração no inferno - e nem pensou em pedir ajuda -, você falhou comigo pela segunda vez.

O susto ajudou. Você se preocupou em emagrecer e tentou dormir e comer melhor. Isso, é claro, não mudou o fato de você ser um gordo sem vergonha que só gosta de trabalhar e casar. O que eu aprendi com o tempo é que, no fundo, você gosta mesmo é de ajudar as pessoas. E você me ajudou tantas vezes e de tantas formas, que eu não seria capaz de descrever. Entre tanta gente que já me pediu tantas coisas na vida, você é um dos poucos que só me ofereceu. Você nunca quis nada em troca. Porque o preço da sua ajuda era a amizade que, entre nós, já foi paga pro resto da vida. Até entre as suas mulheres, seja a atual ou as ex, eu ganhei ótimas amigas. Não tem como colocar em palavras o seu valor, mas ainda assim eu precisei escrever. Porque ainda estamos vivos e somos jovens e nunca é bom esperar pra declarar essas coisas. Essa é provavelmente a minha última mensagem do ano e ela vai na sua direção porque você foi uma das pessoas mais presentes em todos os melhores dias que passaram. Antes que o calendário vire, sua raposa velha, digo aqui que amo você como a um irmão. Exatamente do jeito que você me falou naquela noite inesquecível no nosso bar. Sua voz não saia direito por causa dos soluços e não existia sequer um sorriso pra disfarçar a tristeza dos seus olhos encharcados. Sua bochecha, mais vermelha do que nunca, mexia nervosa enquanto você dizia que eu era como o irmão que não teve, apesar de você ter um de sangue. Mas a gente sabe que irmão não é necessariamente quem sai do mesmo lugar. É quem caminha junto. E isso nós nunca deixamos de fazer. Só que agora caminhamos juntos por estradas diferentes. Naquela mesma noite, no meio das suas lágrimas, você me largou na mesa com os outros e fugiu sem dar explicações. E depois mandou aquela mensagem: "Desculpa sair assim. Não consigo me despedir. É foda saber que você vai embora. Seja feliz na Irlanda ou onde for...."
Foi a terceira vez em que vc falhou comigo.

Por todas essas três falhas e pelos acertos incontáveis, obrigado! Que você seja feliz em todos os dias da sua vida!!


Aos companheiros do blog, desejo que em 2012 vocês tenham ao menos um bom amigo como o meu Renatinho...

The last journey together

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Olhando agora, imagino que a culpa foi das portas, por terem se fechado naquela noite de dezembro...

Eles se sentaram e ouviram a campainha de alerta. Foi o aviso final antes do fechamento que os deixaria sem saída. Com o vagão em movimento, enxergaram a própria solidão. As mãos dela falavam nervosas, agitadas. Vestiam luvas cinzas bem tricotadas, de um tipo que raramente se vê em Londres. Provavelmente foram presente da mãe ou de uma tia querida no Brasil. Em contraste, as mãos dele, nuas, pareciam não ter recebido carinho nos últimos tempos. Geladas, com unhas compridas e pele seca, diziam com calma palavras tristes.

Ele falava do início difícil daquela jornada que começara há mais tempo do que era possível lembrar no momento. E, embora não desse pra recordar a data, os detalhes passavam em alta definição em cada uma das janelas do trem que corria pelo túnel escuro sem prestar anteção à conversa deles. Incapazes de entender, a locomotiva e os passageiros gringos perderam a narração dos primeiros meses daquela aventura bonita que, em cada segundo importante, foi vivida a dois.

Ela reconhecia a proteção e o cuidado que recebeu dele naqueles dias incertos. Por um momento, ao lembrar do olhar cúmplice que trocou com ele quando passaram frio juntos pela primeira vez na neve, as mãos dela sorriram. E era um sorriso tão sincero, que nem as luvas cinzas de tricô conseguiram esconder. Ela sorria por cima das luvas e sorria por cima de todos os problemas que chegaram com o tempo. Se o futuro daquela relação se tornou improvável, esquecer o passado alegre seria impossível.

O trem parou na estação e eles perderam mais uma chance de escapar pelas portas abertas. Em vez disso, seguiram falando honestamente no meio do silêncio mentiroso dos demais. Ele lembrou do quanto ficou feliz quando ela conseguiu aquele emprego bacana. Pra ele não era um problema continuar lavando pratos, desde que ela pudesse finalmente voltar a trabalhar em um escritório. Ela confessou que, se fosse ao contrário, teria ficado com um pouco de inveja. Mas também contou que, apesar do egoísmo, desejou todos os dias que ele estivesse no lugar dela. Vê-lo chegar em casa tão cansado e com as mãos machucadas a matava aos poucos e, à isso, ela preferia sofrer no lugar dele.

Eles se deram as mãos. As luvas dela enroscaram na pele ressecada dele, confirmando que aqueles corpos já não pertenciam mais um ao outro. Ao se tocarem, as mãos se calaram. Eu quis olhar pro alto pra ver o que diziam os rostos, mas, apesar da vontade, não tive coragem. Eles não sabiam que eu os entendia o tempo todo e agora já era tarde demais. Talvez, se eu os tivesse encarado no início, se eles não tivessem entrado no trem, se a porta não tivesse se fechado... essa poderia não ter sido a última viagem deles juntos.

Mais uma estação e o metrô parou. Ela levantou e seguiu para a porta. Ele alcançou a mão dela, mas os dedos escorregaram lentamente e lhe escaparam pela última vez. Quando a porta fechou novamente, uma lágrima pingou num dos dedos secos dele e escorreu com pressa pelos pulsos. Foi a primeira vez que vi uma mão chorar...

Sunday

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A manhã gelada de dezembro proporcionou um fenômeno raro. A estação Camden Town do metrô, quase sempre lotada, estava vazia. Tanto que os fiscais da catraca tiveram a oportunidade de me desejar good morning. Passo pelo local e por aqueles homens todos os dias e, finalmente, em vez de mais um passageiro, fui uma pessoa.

O vento que vinha de frente na escada rolante é mais ameno do lado de fora da estação. Mas a temperatura continua baixa. Se ontem estava frio, hoje faz frio pra caralho. A Camden High Street é mais bonita sem a ridícula quantidade de turistas que se vê diariamente por aqui. Mesmo sem muitas pessoas, ainda há vida. No chão, uma camada fina de gelo deixa os passos perigosos. Ignorando o risco do tombo, as pombas caminham e comem o que sobrou do lanche noturno dos baladeiros. O restante da limpeza é tarefa de um imigrante encapotado que trabalha para a prefeitura de Londres e varre a calçada com a tranquilidade de quem passa manteiga no pão na sala de casa. Ele usa fone nos ouvidos e, se não sorri, também não é sério. A manhã dele está muito além da temperatura e do trabalho e eu penso que isso é obra da música. Acho que eu daria um braço pra saber o que o homem escuta e pra onde as notas o levaram.

Os comerciantes também varrem a frente das barracas e arrumam as mercadorias com calma, como se cada item fosse uma obra especial que ele tentará vender mais tarde. Os turistas afobados provavelmente nunca saberão disso e tentarão barganhar ou vão ignorar completamente a bela disposição dos produtos, como se aquilo tivesse nascido ali na rua, sem a interferência de ninguém. O vendedor sabe que será assim e, talvez por isso mesmo, curte tanto o momento. É grande a chance de que, durante o dia inteiro, ele seja a única pessoa a apreciar de verdade aquele trabalho bonito.

Estou aqui, apesar de ser domingo, pra malhar. Foi difícil acordar às seis da matina, mas me forcei a vir. Não porque eu queira ou precise, mas porque eu posso. Como já fui impedido de me exercitar esse ano, decidi que não posso nunca mais desperdiçar uma oportunidade. Em Dublin eu pedalava 5 minutos e chegava à academia. Em Londres, uso ônibus e metrô e chego em 45. Vale a pena, porque tem a cidade, as pessoas e as pombas pra ver. Mas hoje cheguei cedo demais. A academia só abre às oito. Pra não congelar parado, decido correr até o zoológico, que fica perto e eu nunca visitei. O ar gelado entra rasgando os pulmões durante a corrida. Pra piorar, lembro que terei de pesquisar o dicionário mais tarde - eu já não lembro como se escreve a palavra pulmão. Chego ao local, que obviamente ainda está fechado e, após uma olhada rápida, corro de volta para a academia. Não gosto de ter coisas, mas gosto de fazer coisas. E, se amanhã me perguntarem o que fiz no fim de semana, posso dizer - sem mentir - que fui ao zoológico.

O dia já valeu a pena, mas ainda não acabou. Saio da academia e entro numa loja de alimentos orgânicos. Ontem tive a sorte de achar uma manga linda na barraquinha da rua... quem sabe o que posso encontrar hoje nesse mercado bacana? Me olhando de baixo pra cima, como quem implora pra ser adotado, estavam meus heróis do dia. Um caqui e um coco. Assim mesmo, um de cada. Na terra que não dá frutos, a gente aprende a comprar com cautela apenas o que tem certeza que vai comer. Mesmo que seja coisa rara e importada. A mulher do caixa, com um forte sotaque do leste europeu, diz que eu posso pagar com um cartão de fidelidade e assim ganhar um café. Explico que não gosto da bebida, mas, porque a moça ofereceu, aceitei e tomei o café com leite. Estava horrível, mas bebi tudo. Um pouco por gratidão, mas, principalmente, porque o copo estava quente.

Volto pra casa de ônibus. Vejo as bonitas decorações de natal e penso no que eu gostaria de ganhar de presente. Eu poderia comprar a maioria das coisas que eu poderia querer - então essas eu não quero mais. Gosto das frutas raras, das que só tenho de vez em quando. No fundo, eu gosto mesmo é de comida. E esse é o presente que eu queria ganhar, se pudesse escolher um. Como já achei o que tinha de melhor esse ano, guardo o desejo pro ano que vem. E então lembro que se eu tivesse ficado em casa dormindo quando a escuridão e o frio me prendiam à cama, não adiantaria eu ter sido um bom menino durante boa parte do ano. Porque a manga, o caqui e o coco não viriam parar na minha boca sozinhos. Foi preciso que eu estivesse por aí vivendo, pra que eles tivessem ao menos a chance de me encontrar.

Talvez Papai Noel exista, mas as melhores coisas da vida não vêm de presente. Só ganha quem vai atrás.

Bom Natal pra todo mundo e que vcs se esforcem pra conseguir o que desejam!!

Por que não vou à fisioterapia amanhã?

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Porque a fisioterapia serve pra recuperar o corpo - e o meu andou meio caído - mas esse ano já fiz a terapia completa da mente. E isso, por enquanto, há de bastar. Ando feliz por trabalhar e por existir. Já fiquei triste e já fui confuso e agora sou alegre exatamente por não ter certeza. Por não saber de amanhã nem do resto da noite e nem sequer do próximo minuto. Sou tão feliz pela ignorância que tenho quanto pela consciência de que não sei de nada. E, nesse instante, a única coisa que sei é que amanhã cedo não vou à fisioterapia. Porque essa madrugada, sem dúvidas, merece ser aproveitada como eu gosto - em claro.

Porque tomei champagne cara no restaurante chique de Londres e sorri com minha amiga de longa data exatamente por lembrar de como éramos felizes brindando com cerveja barata no boteco simples de São Paulo. Porque ainda agora não tenho dúvidas de que aquilo é o que somos e isto é apenas o que estamos. Sorri não por estar aqui, mas apesar de estar aqui. Porque bom foi o caminho e não o destino. Porque esse é só mais um tijolinho frágil na nossa história que tem uma base tão sólida nos momentos mais humildes do nosso passado. E é pra lembrar daquele tempo ótimo durante esse presente bom, que não vou à fisioterapia amanhã. Porque essa memória merece calma.

Porque é ótimo ter conquistado novos amigos, mas é ainda melhor voltar pra casa depois da festa e descobrir que velhos companheiros distantes ainda se lembram de mim. Principalmente aqueles que não têm nada a oferecer além da lembrança - e que me dão a certeza de que deixei minha minúscula marca na enorme existência deles. Vale a pena trocar a fisioterapia de amanhã pra saborear as horas pensando que passei discreto pela vida dos outros e fui surpreendido ao descobrir que, depois de tanto tempo, eles ainda lembram que existi. Não aquela falsidade de fim de ano de quem se prejudica e depois se abraça durante as festas, mas a sinceridade de quem não tem mais a chance de conviver e ainda assim lembra com carinho de quem já fez parte da sua vida.

Porque estou embriagado agora - e provavelmente por isso me permito escrever tão sincero - mas sei que vou acordar sóbrio e quero ter a chance de ler e reconhecer que gostaria de ter escrito exatamente isso. Embora dificilmente vá esquecer o que vivi, lembrar algo tão bom nunca é demais. Não vou à fisioterapia amanhã pra poder acordar lento e ter tempo de digerir a recordação junto com o café. Porque os momentos bons, mesmo os que já passaram, devem ser saboreados aos poucos.

Porque foi um dos anos mais difíceis dos últimos todos que vivi e foi também um dos melhores. Porque uma década atrás eu achava que a vida não poderia continuar melhorando tanto todos os anos. E agora, tanto tempo depois, vejo satisfeito que não poderia estar mais enganado. Nunca foi igual. E até o pior que passo se faz melhor porque, se não é bom, pelo menos é novo. E assim me mantém vivo. E é por isso, pra viver, que não vou à fisioterapia amanhã. Porque para os problemas sérios a gente procura o profissional da saúde, mas para todos os outros basta achar os amadores da vida. No fim, quem vive não é quem tem experiência, é quem continua aprendendo.

Porque preciso aproveitar até o fim, até acabar o último respiro dessa sensação tão boa. Porque sei o quanto os dias tristes e vazios surraram meu espírito e, nesse momento tão cheio de euforia, eu quero é curar tudo o que ele já sofreu. O corpo terá outros dias pra fazer fisioterapia e se cuidar. Mas não será agora. Porque amanhã de manhã eu vou curtir hoje à noite. E não importa se eu acorde ou não, terá sido um bom dia. Porque eu não vou à fisioterapia. Eu vou é viver o que eu quero.

Valeu a quem fez parte disso!

Next station

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Conheço um cara que morre de medo de morrer. Assim mesmo. Morre todo dia... só de pensar em morrer. É um sujeito do bem, bom caráter, profissional dedicado, bom pai. Mas medroso. Tá sempre reclamando da vida e, ao mesmo tempo, se apegando demais a ela. Uma manhã ele chegou ao trabalho tenso porque ficou parado vários minutos dentro do metrô.
"Mas qual o problema, amigo? Tá preocupado com o atraso?"
"Que se dane o atraso, cara! Meu medo é aquela obra lá em cima. Se aquilo tudo despenca sobre o trem, eu morro antes de chegar à próxima estação!"
"Tá. E daí?"
Daí discutimos um tempão e, honestamente, ele não me convenceu de que morrer seria mesmo um problema.

Me impressiona o apego que as pessoas têm à própria vida. A maioria nem vive direito, passa pelo mundo capenga, triste, rastejando. Apanhando mais do que batendo. Sobrevivendo mais do que existindo. E, ainda assim, tem medo de acabar tudo e ficar sem nada. Como se tivesse muita coisa pra perder. Viver é bom se for de verdade, com saúde, com pique, com motivo pra acordar quase todo dia e pensar "Caralho, mais um! Venha o que vier, vou aproveitar essa porra toda antes que acabe!" Claro que vez ou outra os problemas vão ser maiores do que a alegria. Mas os momentos ruins servem também pra valorizar os dias bons.

Diferente é o que se sente em relação à vida alheia. A dos outros sim eu tenho medo de perder. Pra mim esse é um apego justificável, embora talvez seja mais egoísmo do que solidariedade. A gente não quer perder quem ama, mesmo que essa pessoa não se ame tanto assim. Minha vida eu daria facilmente pra que algumas pessoas especiais ficassem por aqui. Ainda que eu não estivesse mais na área pra aproveitá-las. Mas, de novo, o nome disso não é solidariedade. E nem deve ser amor. Acho que é mais parte de um desapego do mundo que tem crescido em mim. Tenho medo de sofrer, de ficar doente, de perder pessoas queridas... tenho medo até da forma de morrer. Mas da morte em si... dessa, já faz um tempo, não tenho medo nenhum.

Lembro que há algumas semanas um colega cinegrafista foi baleado numa invasão policial a uma favela no Rio e morreu. Era domingo, o sujeito estava trabalhando e não voltou pra casa nunca mais. Muitos dos meus amigos jornalistas e radialistas ficaram revoltados justamente com o detalhe que, na minha opinião, era o único amenizador da tragédia: o fato de o homem morrer durante o trabalho. É claro que a gente fica triste com a perda, mas o cara morreu fazendo o que gostava. Já que tudo tem que acabar  mesmo algum dia, essa não é uma forma justa de ir embora? Ruim é morrer doente, na cama do hospital, esquecido, fraco, abandonado. Já pensou se nosso magnífico Ayrton Senna tivesse sobrevivido pra morrer de câncer? Quão mais triste seria ver o herói derrotado por um tumor enquanto envelhecia do que parado por um muro enquanto corria? Igual ao atleta que para no auge da carreira, deve ser bom parar no auge da vida. Que ela dure muito enquanto for boa, claro, mas que acabe quando der o tempo e pronto. Sempre vai dar vontade de fazer mais uma festa, mais uma viagem, dar mais um abraço, realizar mais alguma coisa. Mas, em algum momento, já não vai dar pra fazer mais nada além de querer.

De certa forma eu invejo o cinegrafista que morreu filmando o tiroteio na favela, porque ele foi embora enquanto tentava contar uma boa história. Sem fatalismo nem frescura, se um dia eu não voltar aqui pra contar histórias porque morri enquanto tentava descobrir uma boa, fiquem felizes por mim. Eu terei partido fazendo o que gostava. E daí não precisa ninguém aparecer pra interpretar nem perguntar pra pai de santo nem porra nenhuma. Eu tô em paz hoje, fui feliz sempre que consegui e quero ir embora assim, sorrindo. Quero mais é que pensem no quanto de coisa boa eu ainda poderia render, que eu ainda tinha tanto pela frente e imaginem que eu faria coisas legais em algum ponto da vida. Não quero ir e deixar alguém imaginando quantas noites eu ainda cagaria nas calças e quanto faltaria até eu perder toda a capacidade mental a ponto de não reconhecer mais ninguém.

E, como não acredito no que me falam sobre o possível outro lado da vida, tento ser bom com as pessoas pra que elas se lembrem de mim com carinho, e não porque eu espere alguma recompensa no futuro. Fazer coisas boas traz benefício no momento da ação - como aquela sensação inexplicavelmente agradável de tornar a vida de alguém melhor. Isso, pra mim, já basta. O resto é bobagem. Emprego dos sonhos, riqueza, poder, fama... Bulshit! A gente não precisa viver pra ter uma casa enorme e todas as paredes preenchidas com muitas obras de arte. Tanta gente não tem quadros e outras muitas nem parede têm. E, assim mesmo, acham motivos simples pra gostar da vida. No fim, seja pra onde for, ninguém vai levar obra nenhuma, nem o móvel nem o imovel. Um pouco de conforto é bom, evidentemente. O excesso, disso e de tudo o mais, é ruim. Apego demais, até à vida, não é saudável. A gente acaba nao vivendo. A vida é como aquela roupa nova e bonita que a maioria das pessoas mantém limpa e bem passada dentro do armário, mas nunca usa. Fica esperando aparecer a ocasião especial e, antes que ela chegue, o corpo engordou demais pra caber. A melhor roupa é pra usar hoje mesmo. Se amanhã ela ficar velha, pelo menos ganhou em experiência e não se perdeu sem uso.

De todas as formas de desperdício que já vi, nenhuma é tão cruel quanto o desperdicio da vida. Guardar não serve pra nada. E, quando começa a usar, a gente se desapega porque entende que ela é boa, mas não é nossa. É só um empréstimo que dura pouco. Acho que existem muitos motivos pra ficar feliz e triste - e todo o resto é apenas o caminho ou a consequência de um ou de outro. Mas, se for pra viver todo dia como uma obrigação, é melhor não se preocupar mais e deixar logo o trem ser esmagado. Ou a gente deixa de fazer tudo igual e sofrido ou não tem sentido descer vivo na próxima estação...

 

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