Esse é dos grandes, mas talvez valha enfrentar a preguiça...
No meio das muitas notícias sobre o navio que afundou ontem, achei escondida uma notinha dizendo que naufragou, por enquanto, o acordo pra acabar com metade da dívida da Grécia. Caso você não tenha lido com atenção, ou não soubesse antes, vou repetir: existia um pré-acordo para
write off - reduzir a zero, cancelar, fazer deixar de existir - 50% da dívida externa da Grécia!!!
Ok, e daí? Daí que - tirem as crianças da sala - Papai Noel não existe! Nada é de graça no mundo! Como é que se cancela assim um débito de alguns bilhões de euros? Alguém já cancelou uma dívida sua com o banco, com as Casas Bahia ou com a quitanda da esquina onde você compra fiado? Faz tempo que tá rolando essa negociação pra salvar os gregos do buraco, mas resolvi falar sobre isso agora porque vejo que o tempo passa e ninguém repercute. E se ninguém repercute uma coisa dessas, é porque não sabe ou - pior - não entende. Geralmente fico chateado com o fato de as pessoas viverem anestesiadas da realidade, mas às vezes percebo que, no fundo, os anestesistas é que são bons. É muito injusto o jeito que se fala de economia. As pessoas normais mal conseguem equilibrar o orçamento doméstico. Como é que vão ler uma notícia com mais zeros do que são capazes de contar e entender tudo? O cidadão comum é tão acostumado a ouvir falar de finanças e não absorver nada que, quando dá de cara com uma informação grave dessas, tem certeza de que entendeu errado. Para a maioria das pessoas, falar em economia é falar grego. Mesmo!
Tentando aportuguesar, é o seguinte: João trabalha todo dia, de sol a sol, guarda uma graninha e coloca 100 reais na poupança no banco da cidade. O vizinho, José, tá numa dureza danada e faz o caminho contrário: vai até o banco pegar uma grana emprestada. Por coincidência, o mesmo valor. Pra guardar o dinheiro de João, o banco, generoso, vai pagar a ele R$0,60 (sessenta centavos) de juros por mês. Pra emprestar o dinheiro a José, o banco vai cobrar dele R9,00 (nove reais) por mês. O banco não precisou botar a mão no bolso, porque, se você não percebeu, emprestou o dinheiro de um para o outro. A cidade está cheia de outras pessoas que, como João, depositam algumas economias no banco. E também tem mais, muito mais, endividados como José. O banco, muito bacana, vê nisso uma ótima oportunidade de ajudar e resolve facilitar ainda mais o acesso aos empréstimos. Abre linhas de crédito, anuncia na tv, manda correspondência... tudo dizendo que o cliente só precisa pedir e terá o dinheiro na mão. É o fim dos problemas! O povo fica feliz e começa a usar daquele serviço generoso e salvador. Ao contrário de José, que só queria a grana pra pagar as despesas extras do começo do ano, os outros pedem empréstimos para comprar uma tv gigante novinha, um carro zero, uma moto e, os mais ousados, compram logo a sonhada casa própria. Eles só esqueceram de pensar nos números com calma e não se deram conta de que os juros que vão pagar não são baixos como os que João recebe do banco. São, na verdade, tão ou mais altos do que os que José paga mensalmente. Com dívidas pelo resto da vida, a casa que compraram será tudo, menos própria.
O negócio dos empréstimos era atraente para as pessoas e lucrativo para o banco. Com o tempo, o número de clientes gastões, como José, superou imensamente o de poupadores, como João. O banco já não tinha mais como emprestar dinheiro de um freguês para o outro, mas não queria perder o bom momento. Assim, o banqueiro vestiu aquele terno bonito e foi até o país vizinho, muito mais rico, e pediu dinheiro emprestado ao dono de um banco bem maior. Daí voltou pra cidade cheio da grana e continuou emprestando às custas dos outros. Alguns anos depois, o pessoal que tinha feito empréstimo começou a ficar duro de novo. Os juros que pagavam eram muito maiores do que os reajustes salariais que recebiam. E outros nem salário tinham, já que perderam o emprego. O jeito era emprestar mais dinheiro do banco pra pagar os primeiros empréstimos. Nessa época a demanda era tão grande, que o banco já não tinha mais como continuar ajudando a população com aquele serviço tão nobre e caridoso. Uma auditoria revelou que o banco, assim como João e a maior parte do povo, devia muito mais do que era capaz de pagar. Deu uma crise desgraçada na cidade, começaram a noticiar no jornal e o cidadão, alheio e endividado, não entendia nada. O governo decidiu intervir para conter a crise. Mas, como os cofres públicos não tinham tanto dinheiro assim, não daria pra ajudar todo mundo. Então o governo escolheu ajudar só o banco. Afinal, a dívida de cada cidadão era pequena, se comparada à do banqueiro. Cada um que se virasse. O governo, cheio de crédito no exterior, foi até um banco maior ainda, o fodão de todos os bancos, e voltou com uma puta bolada. Comprou a dívida do banco da cidade, transformou o banco quase falido num bem público e deixou que tudo continuasse como antes: os empréstimos, os juros, os endividamentos...
Calma aí que já vai acabar.
É importante lembrar que aquele era apenas um banco de uma cidade. Havia mais um monte de instituições parecidas espalhadas pelo país. Para ajudar todas que se viram penduradas, o governo fez muitas outras dívidas com aquele banco internacional fodão. Mas o governo era esperto e não queria dever pra um lugar só, então começou a vender o que chamou de títulos da dívida pública, ou seja, papéis que valem um preço hoje e valerão muito mais daqui a dois anos. Em outras palavras, o governo começou a vender juros e se transformou, ele mesmo, num banco. Os investidores estrangeiros compraram aos montes, porque os juros eram bons e, pô, estamos falando do governo. Pagador melhor não há. É dinheiro certo! Não tem calote! Mas o tempo passou e algo saiu errado. O povo continuava endividado e não tinha condições de pagar os bancos. Os bancos seguiam emprestando irresponsavelmente e pedindo mais dinheiro de fora. O governo permanecia vendendo juros e salvando os bancos e também se viu num buraco. Quando os estrangeiros perceberam que o tão poderoso governo poderia dar um calote naquela dívida enorme que fizera com eles, a coisa ficou tensa. Inventaram as chamadas agências de risco, que basicamente dizem para o mundo quem é e quem não é bom pagador. Quanto mais caloteiro em potencial for um governo, pior a avaliação dele. E quanto pior a avaliação, maior os juros que ele tem que pagar pelos empréstimos. É como se o José, que pagava juros de R$9 a cada R$100 emprestados, precisasse agora pagar R$15 a cada R$100, como castigo por ser mau pagador.
Só mais um pouco, juro.
Diante daquele caos, o governo ameaçou não pagar ninguém. Já tava todo ferrado mesmo, que se dane. Ninguém pode prender o governo, então não ia mudar muita coisa. Mas se o governo caísse em desgraça, os outros países que usavam a mesma moeda também iriam se dar mal. É como se a América do Sul inteira usasse o real e o valor da moeda despencasse para todos porque um governo deu calote. Não, os vizinhos precisavam evitar isso. Todos se reuniram, chamaram seus empresários e bancos fodões e botaram as cartas na mesa: "Seguinte, pessoal. Vocês já ganharam muito às custas de todo mundo aí. Agora é hora de entubar um pouco de prejuízo. Fulano, a partir de amanhã, o bilhão que o governo te deve vira 500 milhões, ok? E isso vai ser voluntário, ninguém tá te forçando. Vamos todos perdoar metade da dívida do governo, numa boa, por vontade própria, pra roda continuar girando. Fechado? Depois a gente se junta aqui, arranja mais um pouco de grana emprestada pra eles e mantém tudo funcionando com está."
No fim daquele ano, os banqueiros e empresários estrangeiros ainda discutiam se deveriam ou não perdoar a dívida. A negociação estava difícil, tinha altos e baixos, mas acabaria dando certo. O governo continuou vendendo juros e salvando os bancos. Eventualmente, também fez negociações para perdoar e/ou amenizar débitos de impostos de grandes empresas com a Receita Federal. Os administradores das empresas que não pagaram impostos e os diretores dos bancos que foderam o país tiveram uma ceia gorda ao receber bônus milionários de seus patrões, às custas do povo. José recebia diariamente cartas de cobrança e telefonemas ameaçadores para pagar a sua dívida no banco e nas lojas de departamentos. A gerente riu da cara dele, quando o pobre homem foi perguntar se não havia uma forma de negociar os juros. Ele não viu - e, se viu, não entendeu - que o governo salvou os bancos e que metade da dívida de ambos poderia ser perdoada pelos estrangeiros. João, nosso cidadão consciente que começou essa história poupando e que ajudou indiretamente o vizinho José, os bancos e o governo, acabou ficando um pouco apertado devido à inflação, que era muito maior do que o seu salário. Ele raspou a poupança, mas ainda assim não deu conta de pagar todos os impostos naquele ano. João foi multado por sonegação e nem conseguiu pegar empréstimo no banco, porque era um péssimo cidadão, com o nome sujo na praça.
Moral da história: nós somos um bando de otários!