Conto moderno

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Era uma vez três porquinhos.

Com a grana curta por causa da miséria que recebia do INSS, o pai deles, Seu Torresmo, mandou os jovens cuidarem das próprias vidas. Os três então grilaram algumas terras e começaram a levantar seus respectivos barracos.
Cícero, o mais vagabundo, construiu uma cabana de palha. Terminou o serviço em um dia, fumou o que sobrou da palha e passou o resto do tempo jogando dominó e tomando cachaça.
Heitor, um pouco mais orgulhoso, mas não tão afeito a trabalho duro, derrubou algumas árvores da propriedade vizinha e construiu uma casa de madeira. Demorou uma semana e ficou sem acabamento, porque ele já tinha marcado a data da open house.
Prático, o mais esperto, chamou um DJ, espalhou potentes alto-falantes em suas terras e distribuiu ecstasy com red bull e café extra forte para os convidados curtirem o que ele chamou de "A Rave da Construção Civil". Depois de apenas 72 horas de som e trabalho dançante, Prático já tinha uma casa de tijolos com 4 suítes, piscina, salão de jogos, internet wireless e tv a cabo pirateada.
O lobo mau apareceu como quem não quer nada e acabou tomando um pau de Cícero na mesa de dominó. Perdeu todas as partidas e, já sem nenhuma fichinha para apostar, ameaçou tomar a casa do porquinho preguiçoso. Cícero correu para dentro e trancou a porta. O lobo tomou mais uma dose da cachaça do porco, depois bufou, soprou e derrubou o barraco. Assustado, Cícero foi até a casa de Heitor, que continuava a fazer festa.
Ao ver aquela cabana em melhor estado, o lobo doidão cresceu o olho e anunciou:
"Ei, porquinho! Aquele outro barraco está meio caído. Agora eu quero esse aqui, com as garotas e tudo o mais que tem aí dentro."
Os porquinhos ignoraram o pedido.
Cheio de fôlego após a implantação da nova lei anti-fumo, o lobo bufou e soprou sem esforço e botou abaixo aquela casa construída mal e porcamente. Parecia que o zoológico inteiro estava na festa. Nunca se viu tanto bicho bêbado e pelado correndo pela floresta ao mesmo tempo. As galinhas que animavam a festa fugiram sem nem mesmo recolher os ovos que caíram pelo caminho.
Os dois porquinhos fugiram para a casa de Prático e o lobo percebeu, puto da vida, que não tinha sobrado nem casa, nem mulher, nem cerveja e nem sequer um pedaço de picanha para ele. Furioso, foi atrás de Cícero e Heitor, disposto a dar cabo da família toda. Mas eis que o lobão chegou à bela propriedade de Prático e ficou boquiaberto com o luxo do lugar. Deu um mergulho na piscina, arriscou algumas tacadas na mesa de sinuca e, depois de checar seus emails, facebook, orkut e twitter, bateu na porta:
"Ei, porquinhos, eu sou lobo, não burro. Não vou derrubar essa mansão bacana. Vão embora agora e eu deixo vocês continuarem vivos."
Ao lado dos irmãos mais fortes, Cícero se encheu de coragem e falou:
"Ei, seu lobo, eu vi um vídeo da sua irmã de calcinha no youtube. Lero, lero!"
O lobo enlouqueceu, rosnou, uivou e começou a espancar a porta.
"Abra essa porta, seu porquinho de uma figa. Você vai virar feijoada essa noite!"
Silêncio.
"Abra logo, porquinho, eu estou avisando!"
Dessa vez, Heitor respondeu:
"Lobo, é melhor você parar agora. Meu irmão Prático está de ressaca e não quer saber de barulho."
Às gargalhadas, o lobo retrucou:
"Onde já se viu lobo com medo de leitão? Vocês estão malucos? Abra logo essa porta, porquinho miserável."
Profundamente chateado, Prático levantou, abriu a porta e falou:
"Porquinho é o caralho! Meu nome agora é Zé Pequeno, porra!"
Deu três tiros no lobo e aproveitou a carne do bicho para fazer um novo churrasco regado a ecstasy e cafeína. O evento reuniu novamente muitos amigos e as casas dos porquinhos foram reconstruídas.
A história terminaria bem, não fosse uma coriza que começou a escorrer do nariz de Prático uma semana depois. Ele ficou de cama com febre alta, falta de apetite, dores musculares, tosse e náusea. Heitor e Cícero apresentaram sintomas semelhantes. Os três irmãos acabaram morrendo na fila de espera de um hospital público e nunca mais ninguém foi àquela floresta, com medo de pegar a gripe dos porcos.
FIM

10 comentários:

Blog da Pandinha disse...

É o que eu sempre digo... a gripe suína... sempre ela...

Roberta Ávila disse...

hahahahhaha ADOREI!!! dava de fazer um livro inteiro de contos de fadas modernos. Q tal?

Bjos

Mari Rampazzo disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Muito boa!! Pena que nao posso contar esse seu conto para os meus pequenos!!!

bjs

Mr. Lemos disse...

hehehe
Valeu, meninas!
Vamos organizar uma campanha pela modernização dos contos infantis. Isso, claro, se sobrevivermos à chateação da gripe da feijoada...
bjocas

Blog da Pandinha disse...

Vc se esqueceu de um detalhe: a dor de cabeça. Ou deixou de colocar só para eu não me lembrar que ela existe? Hahahahaha... simbora para adaptar Chapeuzinho Vermelho.

Aline disse...

Muito bom!! Muito bom mesmo!!

mirellesiqueira disse...

queria entender seu cerebro...

Mr. Lemos disse...

Valeu, Alininha!

Irmã... é melhor não tentar. Pode ser perigoso...

bjocas

Anônimo disse...

AE MAN MANDO BRASA PORQUINHO DE RESSACA a historia dos tres porquinhos nunca ficou tao legal!!! AE MLK adori fia!!

Mr. Lemos disse...

Hahuahuahuahua... Valeu!! O comentário saiu até melhor que o post! Hehehe. Thanks!

 

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