O mundo nunca foi melhor. Está fácil viver. Simples, rápido, pronto. É só trabalhar do jeito que mandam e gastar da forma que induzem. Já está tudo acertado. A roupa que vamos usar, a comida que vamos comer e os programas que vamos assistir. Ninguém precisa se esforçar: já está decidido quem será pobre e quem será rico. E também não há porque se preocupar. No fim tudo vai dar certo. Se não der pra você, dará certo para alguém que terá a missão de te convencer de que as coisas aconteceram da melhor forma para a sua vida. Então é só relaxar e curtir, exatamente como nos disseram para fazer. Está tudo pensado, mastigado, acertado e engolido por nós. E se você não lembra de ter engolido algo, pode ficar tranquilo. Quando aceitamos o que nos botam na boca e digerimos sem nem saber o gosto, fica mesmo difícil lembrar.
Tantas vezes nos falaram que o cérebro podia fazer mais, mas nunca nos disseram que poderíamos viver com ele fazendo ainda menos. Pra que pensar? Alguém já falou frases legais algum dia e agora nós temos a incrível chance de repetí-las de novo e de novo, cada vez com mais entusiasmo, como se fossemos tão sábios quanto quem pensou aquelas palavras pela primeira vez. Os livros, dos quais tanto alarde fizeram, não serviam, afinal, para nos fazer raciocinar. Eles eram apenas uma fonte de trechos prontos para copiarmos e dividirmos com nossos amigos que podem, por sua vez, dividir com os outros amigos deles.
Inovadores nós fomos quando colamos nas provas. Lá sim nós adiantamos o futuro. Porque, muito antes dos nossos antiquados professores, nós já sabíamos que não era mais preciso aprender ou criar para sobreviver nesse mundo bonito. Também não precisávamos ter tido, naquela mesma escola, as inúteis aulas de Geografia. As belezas do planeta nós descobriríamos por meio dos guias de viagem, que mostram sempre os mesmos destinos de todas as pessoas todos os anos. É muito mais simples assim, já que os turistas tiram as mesmas fotos em frente aos mesmos lugares e a gente nem precisa de fato visitar outro país. Nós já conhecemos tudo muito bem pela tela do computador.
As culturas e costumes que os professores de História ensinavam com tanto entusiasmo, essas provaram-se inteiramente irrelevantes. Afinal, nas poucas vilas onde sobrevivem as tradições dos povos, não há turismo nem novos monumentos iluminados e muito menos gift shops. Que graça teria viajar pelo interior de uma nação qualquer e não voltar para casa com as mesmas lembrancinhas fabricadas na China que todo mundo trouxe na última viagem?
Em vão nos ensinaram Educação Artística, já que não seriamos nunca mais incentivados a criar. Agora é tudo muito melhor, pois só precisamos idolatrar o que já foi feito por alguns poucos que perderam o próprio tempo criando. E até para admirar podemos poupar nosso cérebro. Os críticos já decidiram por nós o que presta ou não. Aliás, não precisamos nem ver a obra. Basta ler a crítica.
Outro tipo inútil de educação que recebemos foi a de atividades físicas. Desperdiçaram nosso tempo ensinando como funcionam esportes que não voltaríamos a praticar no futuro. Por que nos esforçaríamos com isso, se é muito melhor sentar na frente da televisão e assistir a outras pessoas suando? Se quisermos suar, não será pelo prazer da brincadeira, como nos fizeram acreditar na época do colégio. Será apenas para construirmos corpos iguais aos que vemos na tv e nas revistas. É assim que todos devem ser. A gente nem precisa se esforçar para saber disso.
O mesmo se aplica à matemática, à física, à química e a qualquer outra disciplina exata que tentaram nos empurrar. Perdemos muito tempo com contas intermináveis e símbolos complicados. Agora temos aplicativos que convertem e dão resultados em instantes. E, na maioria das vezes, nem é necessário usá-los. Os números que precisamos saber já são exibidos em fontes bem grandes nas etiquetas de preço das lojas. O que mais importa além disso? A fatura do cartão de crédito? O gerente do banco cuida, a juros bem camaradas. É o que diz no comercial aquele artista famoso, então eu acredito.
Sinto que sou privilegiado por viver nessa época, pois não preciso pensar. As notícias são iguais e são transmitidas da mesma forma. Ninguém precisa inventar nada. É só consumir. De preferência, em excesso. A moda é ser parecido. Óbvio. Nulo. Não devemos desconfiar de nada. Tudo o que falam é verdade, por isso a vida é tão boa. Vamos venerar os ídolos, mas não nos esforcemos para ser um deles. Nascer, crescer, copiar e morrer. Esse é o ciclo perfeito.
Se você está satisfeito, o texto acaba aqui. Nem se incomode em ler as letras pequenas.
Existe uma forma obscura de controle no mundo. Uma escravidão generosa onde os escravos acham que são senhores. Todos os dias ela é entregue já mastigada na nossa garganta. É fácil engolir e aproveitar de barriga cheia. Mas, para se libertar, é preciso que a gente engasgue e vomite. Porque - a algumas coisas - é melhor passar fome...
Museo River – o museu do River Plate
13 horas atrás




24 comentários:
Você escolhe publicar esses textos "tapa na cara" aos domingos de proposito? Sim, pq domingo ja é um dia pesado, chato pra cacete, dai vc vem e nos faz pensar naquilo que é evidente mas que a gente prefere esquecer, então o domingo fica ainda pior pq a gente percebe que vc tem razão e o mundo é essa merdade de lugar, habitado por essas merdas de pessoas mediocres.
faltam forças pra encarar a segunda-feira.
Hahuahuhuahua! Domingo é foda, irmã... concordo com isso. Mas minha intenção nunca é deixar nada pior. Perceber que o mundo tá uma zona é uma coisa boa. Assim a gente sabe que precisa mudar. Força aí! Segunda-feira é sempre uma ótima oportunidade pra fazer tudo diferente. A única coisa que não funciona às segundas é começo de regime... hehehe. Bjoca
Noossa Ernani, machucou !! kkkkkkkkkkkkkkk É complicado sair dessa vida "mastigada" neh.. por exemplo amanha, como vc disse é Segunda e podemos começar diferente, soh q infelizmente não depende soh de nós, tem pessoas que vc precisa.. que não gosta do diferente. Sei lá.. eu não gosta da rotina, mas tenho q viver nela... aiai qm foi q disse q era facil viver neh ?? kkkkk rs beijos
Verdade, Camis! Não dá pra mudar o mundo numa segunda-feira. Mas dá pra tentar fazer um pouquinho diferente todo dia. Nem que seja só pensar ou estudar ou criar qualquer coisa nova. Ainda que seja um prato ou drinque novo. Vale o exercício.... bjo, querida! Viver é fácil... o dífícil é existir de verdade no mundo.
Como assim você fala dos esportes? Se não tivesse a Copa como a gente ia conseguir feriadão de 1 mês inteirinho a cada 4 anos pra fazer a festa no buteco? Agora a parte da matemática vou ser obrigada a concordar com você, sou da turma que abraça os aplicativos... Hahaha
Um beijão!
Ernani, esse texto é quase um tapa na cara, vc como sempre nos fazendo pensar nas coisas q fingimos não ver!
Alto lá, Mari! Gente como a gente não precisa de esporte nenhum pra fazer a festa no boteco!! Hehehe. Bora inventar um aplicativo da cachaça... ;)
Danubia, querida! Conseguir incentivar alguém a pensar é a melhor recompensa que eu posso querer na vida. Thanks, vizinha!
bjocas
Detesto domingo nessa cidade isolada do mundo, mas é amigo, estou com vc, não depende só de nós, mas no que depender estou aqui para fazer a diferença e que venham as segundas...terças..Bj
sabe que eu tenho uma teoria de que mto do dinheiro q a gente gasta na vida a gente gasta tentando se recompensar por toda a merda que aguenta para ganhar dinheiro. assim o ciclo se alimenta.
maas, talvez a gente esteja até numa época boa. dá uma olhada:
http://www.nytimes.com/2011/10/09/books/review/the-better-angels-of-our-nature-by-steven-pinker-book-review.html?_r=2&ref=books
O mundo tá uma zona e nossa consecpçnao de certo e errado virou relativa, mas acho que pra gente classe meedia isso é mais evidente do que para classe pobre, eles sim tem criatividade o resto é resto mesmo.
Agora, ler um texto desses em uma segunda é sacanagem.
É, Verinha... domingo só deve ser bom até a hora do almoço, quando a gente ainda está dormingo.. hehehe.
Ro, vou ler seu link depois com calma, mas acho boa sua teoria. O melhor dela é que talvez a gente possa pelo menos tentar quebrar o ciclo... né??
Ka, ótimo ponto. Vale como um excelente complemento para o post. Ainda tem essa diferença enorme de tipo de vida entre as classes. Pra compensar o texto pesado, vai fazer um sol danado nas nossas ilhas hj... ;)
bjos, queridas!
POW!
(Essa sou eu aplaudindo de pé!!). O pior é que quem nasceu para mudar alguma coisa não o faz por ser muito doloroso. Ser escravo do que nos é imposto é muito mais fácil do que ser senhor do seu proprio destino! As pessoas não irão entender, e talvez quando elas entenderem, essa pessoa já estará morta a anos! Hoje mesmo estava falando que eu deveria ter nascido no século passado, como uma dançarina de can can, em um cabaret cheio de artistas e escritores boemios!. Isso sim seria vida! hahaha (Brincadeira gente! Ou não...) bjooo
Nascer, crescer, criar e morrer....
Acho q sou uma aberração no mundo. Ñ consigo me acomodar engolindo o q nos dão. Prefiro pensar, raciocinar e entender.
Talvez por isso a minha dificuldade em viver: Td q mais quero na vida é "existir no mundo".
Bjs
Hahuahuahuhuaa. Acho que já me imaginei vivendo na mesma cena, Rafa. Exceto que, no meu caso, claro, eu era um escritor boemio, e não uma dançarina de can can... hehehe
A velhota, a gente sofre porque pensa, mas deve ser melhor assim do que viver na anestesia...
bjocas
Amei o texto!
Vou passar pros meus alunos (dou aulas de Sociologia pro Ensino Médio) e vivo chacoalhando a moçada nesse mesmo sentido. E a parte mais legal é quando se percebe reação!
(Iara, a irmã da Leda)
Amei o texto!
Vou usar com os alunos (dou aulas de Sociologia pro Ensino Médio), porque está muito de acordo com as chacoalhadas que eu dou na moçada. E o melhor de tudo é quando eles reagem!
(Iara, a irmã da Leda)
Salve salve Iara!! Thanks pela visita!! Se servir pra chacoalhar a moçada, fico mais feliz ainda! Depois me conta a reação!
Bjos
Viva aqueles que tem fome! E aqueles que não se contentam em comer apenas o que lhe é oferecido...
Viva!! Certeza que vc se inclui nesse grupo, querida!
bjo
Jânio.
Que saudades da inquietude compartilhada no Barge, companheiro...
Mesmo distante, me sinto mais confortável ao perceber que existe
um igual pelo mundo.
É esse o problema todo: a maioria não quer ser "chata".
Ah, irmão! Que a gente não se acomode, mesmo fora do bar. Talvez não exista ainda solução, mas dá pra viver enquanto houver, pelo menos, esperança.
Saudade, malandro!
Abs
com o perdão da palavra:
VC É MUITO FODA!!
sem mais.
Hahaha. Saudade dos seus comentários engraçados!! Thanks so fuckn much, querida!
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