Nos meus sessenta eu jogaria bola. Não o futebol profissional dos craques endinheirados, mas aquela pelada de domingo na quadra do Seu Nenê. Eu usaria o tempo pra viver de novo alguns momentos daquelas manhãs que se repetiam semanalmente e que a cada sete dias faziam minha barriga sentir o característico frio da ansiedade, como se a paixão nunca passasse. Os sessenta talvez não bastassem pra que eu marcasse um gol, mas com certeza me valeriam pra ver a rapaziada e fazer as velhas piadas sobre a barriga e o fôlego dos outros. Eu ouviria as pequenas reclamações do trabalho e riria das manjadas expressões de medo nos rostos dos que continuavam a tomar as sucessivas saideiras já no meio da tarde enquanto as esposas aguardavam em casa com o almoço servido na mesa e o rolo de macarrão na mão. Aquele era o momento em que eu já começava a aguardar a segunda-feira só pra ver o mau humor dos caras dizendo, mais uma vez, 'tomei um pau da mulher'.
Os meus sessenta seriam ideais para ir ao bar falar bobagem. Nada mais justo do que usar a ocasião para reviver aquelas noites no Campo Belo ou na Vila Madalena com algumas das pessoas mais formidáveis que já tive o prazer de conhecer. Eu pegaria o cardápio e pediria um de cada, apontando para os petiscos maravilhosos que só existem no Brasil. A conversa desceria em goles saborosos e gelados e me faria ir embora feliz por ter tido a oportunidade de viver naquele tempo com aquela gente. Por isso é que, se tivesse a chance, eu viveria com gosto exatamente a mesma cena nos meus sessenta.
Ou talvez os meus sessenta fossem melhores para voltar para casa e ver a minha outra gente. Eu abraçaria com força meus sobrinhos mais velhos para que eles não se esquecessem de mim após tanto tempo longe. E escreveria algo bonito no verso de uma foto para a minha sobrinha recém-nascida, assim um dia ela saberia que eu existi e só não a conheci direito porque o tempo nos separou. Eu reuniria todo mundo na mesma sala e, com a esperança de sempre, tentaria fazer da minha mãe e das minhas irmãs, amigas umas das outras. Nesse ponto é certo que eu falharia desgraçadamente, porque nem todos os meus sessenta seriam suficientes para mudar o lado para o qual o mundo gira, mas eu tentaria de novo mesmo assim.
Seria agradável usar os meus sessenta para folhear novamente algumas páginas dos grandes livros que já li. Há histórias tão incríveis e frases tão bonitas, que eu passaria todos os meus sessenta relendo e repetindo cada sílaba, só para tentar viver um pouco do que foi escrito com tanta dedicação. Nos meus sessenta eu também veria cenas geniais de filmes incríveis e invejaria outra vez a única coisa que sempre invejo nas pessoas: as ideias brilhantes para criar coisas emocionantes e incomparáveis.
Eu ouviria uma boa porção de músicas nos meus sessenta. De preferência ao vivo, porque o aplauso faz parte do arrepio que elas causam. E talvez eu fosse ainda ao teatro durante os meus sessenta. Veria um grandioso musical e teria de uma só vez o som, a história e a música. Ao fim do ato, eu levantaria e bateria uma mão na outra com toda a minha força, repetidas vezes, numa tentativa desesperada de mostrar aos atores de vozes fabulosas o quanto eu me senti privilegiado por poder ouvir algo indescritível.
Nos meus sessenta eu desceria a serra apressado para encontrar a menina que eu ainda nem namorava. Eu riria de novo da cara surpresa dela ao me ver na praia sem termos combinado nada. Mais uma vez, nos meus breves sessenta, eu sairia de perto oportunamente para que ela pudesse comentar com as amigas essas coisas que as meninas falam dos meninos quando ainda têm dúvidas se eles gostam delas ou não. E depois eu dormiria na areia para ela poder fingir dormir sobre mim e, sorridente, ouvir no meu peito inconsciente a certeza que procurava acordada.
Eu faria tanta coisa, viveria tantos momentos, mas jamais conseguiria fazê-los todos, porque tinha apenas sessenta e, desses, agora já não resta nenhum. Da hora inteira que ganhei de volta com o fim do horário de verão, sessenta minutos eu gastei fazendo somente duas das coisas que mais gosto na vida: sonhar e escrever.
E ainda que esses sessenta fossem os meus últimos, teriam sido bem aproveitados. Ao transformá-los em palavras, percebi que não tem nada que eu desejasse fazer que ainda não tenha feito. Eu tenho sonhos, mas não carrego frustrações. O que ainda não realizei me mantém vivo. E o que eu já vivi me faz feliz.
Bom horário de inverno pra quem vive aqui em cima!!
Sessenta
| author: Mr. LemosPosts Relacionados:
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26 comentários:
Parafraseando: .... a única coisa que sempre invejo (saudavelmente) no Ernani Lemos: as ideias brilhantes para criar coisas emocionantes e incomparáveis, nessa madruga em claro em que me encontro. Bj no coração. Verinha
Eu passaria os meus sessenta lendo e relendo seus textos e feliz por vc ter voltado a escrever e tb por fazer parte de varios momentos felizes da sua vida... Tampcs!
Raaaa! Não sou o único acordado nessa madruga mais longa!!
Verinha, querida, thanks pelo carinho de sempre! Espero que esteja tudo bem por aí.
Japs, agora que vc acordou... vou te dar uma ideia melhor do que fazer nos próximos 60 minutos... ;)
bjocas
Não foi há muito tempo que descobri que tinha voltado a escrever no blog. Naquele momento corrido, como aliás têm sido todos os dos meus últimos meses, pensei que mais tarde voltaria para escrever um comentário que traduzisse por inteiro a satisfação em saber que estão felizes num país onde acredito que ainda hei-de viver e em perceber que havia novos textos seus para ler. Mas acabei não escrevendo.. Ultimamente sinto que preciso de muitos sessenta para fazer tudo o que quero.
Hoje não poderia deixar passar, mas acredito que de forma muito sucinta eu consiga traduzir o que me vai no pensamento. Obrigada pelos seus textos. :)
Beijos aos dois!
Lindo o texto!!Alias todos sao, escrever com a alma nao e p/ qualquer um nao!
Agora mais que nunca vivo intensamente meus sessenta, principalmente p/ nao perder um segundinho das descobertas da Bellinha ;)
Bjs
Sonia, minha querida! Quanto tempo!! Bom demais te ver de novo por aqui! Eu é que te agradeço pela companhia. Espero te ver em breve em Londres!! A casa está sempre aberta para os amigos.
Dany, precisamos fazer um encontro dos novos blogueiros londrinos!! Hehe. Aproveite bastante aí a pequenina! Thanks!
bjos
Como é bom ler mais um texto seu!
Fiquei um pouco assustada: pensei q vc estivesse falando em idade, e comecei a fazer as contas de qts anos eu estava, pensando ñ ter visto o tempo passar kkkkkkkkkk
Bom, vc teve sessenta a mais, e aqui nós tivemos a menos.
Mas o importante de td isso é: Como vc consegue fazer até o mosquitinho voando na China ser tão importante!
Te amo de paixão.
Ernani, comecei eu a sonhar, me imaginar aos sessenta anos, tinha certeza que você falava de idade, até que... você fala em horário, pá acordei e cai pra realidade, hahaha, só você mesmo, pra conseguir guiar tão bem o pensamento alheio. Tinha certeza que não se tratava de sessenta minutos, bem que é tempo pra muita coisa, nascer, morrer, rir, chorar de alegria de preferencia, e sonhar, que como você disse no ultimo parágrafo é o que motiva a continuar buscando e vivendo. Forte abraço.
É impressionante a forma que você dá vida aos seus textos. Cada linha que eu lia, ficava mais curiosa pra saber o que vinha em seguida, e saber a que 'sessenta' você se referia.
Realmente precisamos aproveitar melhor o tempo com o que faz diferença em nossas vidas.
Mas uma coisa me chamou muita atenção: A foto com você e a Japs, eterniza muito mais do que sete vezes sessenta!
Lindo o amor de vocês!!!
Besos, besos, besos!
Velhota, vc é quem tem que fazer um post sobre os sessenta de idade. Tá pertíssimo já, né? Já vou começar a comprar as velinhas aos poucos, senão não vou ter grana pra tudo... ;)
Fernando, vc deveria aproveitar e contar pra gente como seria essa sua vida idosa. Já imaginou mesmo... agora não custa dividir.... hehehe. Valeu, companheiro!
Tha, gracias!! Essa foto é mesmo de muuuuito tempo atrás, mas posso garantir que ate hoje a japs continua me usando como travesseiro... ;)
bjos e bjos
Vc é um ótimo mesmo. Ficou um tempo sumidinho e voltou arrasando !!! kkkkk
No começo fiquei sem entender, mas derpois, nossa como vc consegue transformar algo tão pqno, em tão grande, bonito, tirar o lado bom das coisas com tanta facilidade. Parabéns !! Já falei né, que vc deveria escrever um livro ... =D
Ameii essa frase .. " Eu tenho sonhos, mas não carrego frustrações. O que eu ainda não realizei me mantém vivo. E o que eu já vivi me faz feliz."
Beijos
Poxa, que texto lindo! Sempre mandando bem! A foto é muito fofa! =)
Camis, querida, com vc de fiscal, sempre no meu encalço, eu nem posso me dar ao desfrute de ficar sumido muito tempo.... hehehe. Valeu mesmo!! Pelo carinho e por não desistir dessa porcaria aqui... ;)
Peripatetica, minha nobre vizinha, obrigado!! A foto nada mais é do que o retrato de dois preguiçosos aproveitando a praia pelos instantes finais na vida, sem saber que iriam mudar para um lugar congelado... hehe.
bjos
muito lindo, irmao, mas eu passei os meus sessenta dormindo mesmo.
pra quem nao dorme como eu, é a melhor coisa a se fazer com esse ganho de tempo.
e que delicia esse horario de inverno, assim ficamos mais proximos do Brasil!
Oi Ernani!
Antes de mais nada, que bom voltar a ler seus textos, senti saudade!
Obrigada pelas palavras carinhosas em meu blog!Incrível o dom que você tem em transformar palavras em poesia. Sessenta minutos, uma eternidade para transformar sonhos em realidade suprimidos de nossas vidas por um decreto.rsss por um passe de mágica.
Abração e tudo de bom!
Irmã, vc me deixou sozinho com a insônia essa noite! Acordei duas da matina - horário velho - e nunca mais dormi. Achei que vc estivesse me acompanhando aí da França... :(
Valéria, bom é que vc tenha voltado. Que a fase fique boa por bastante tempo, querida.
bjos
"O que eu ainda não realizei me mantém vivo. E o que eu já vivi me faz feliz."
Nossa!!!!!
Quero um pouquinho disto para mim!
Um super abraço
É muito bom te ler. A gente fica com mais vontade da vida.
Você é foda! Não canso de dizer.
Saudade demais.
Fiquei me roendo até descobrir o que eram os 60. Os meus eu passei bebendo, então acho que foi proveitoso. Hahaha
Beijoca, querido.
Ah, e a foto é uma fofura!
Lindo. Me dessem o texto numa folha sem nome e eu diria que é Drummond. Pena ele não estar mais aqui, certamente ficaria honrado com a minha comparação.
E sensibilidade tem a Cleidoca, que já disse tudo. Seus textos, irmão, e indiretamente sua companhia, dão mesmo muito mais vontade de viver.
Brilhante. Mas se estiver com saudades do horário de verão, já sabe onde encontrar né? =DD
Celia, com certeza vc já tem!! Sem modéstia aqui, por favor!! ;)
Cleidoca, vc fala muito palavrão!!! Hehe. Valeu, lindona. Saudade sempre!!!
Mari, assim vc me enche de orgulho! Isso sim é uma lição do que fazer com o tempo livre. Parabéns e obrigado pelo sábio conhecimento, sua pinguça!!! Hehehe.
Malandro, o que me faz falta não é o horário de verão. São os canalhas como vc, que dão o prazer da convivência por um tempo e depois vão embora deixando para trás a porra da saudade. O senhor continua sendo suspeitíssimo! Valeu!!!
bjos e abraços
Eu tenho sonhos, mas ñ carrego frustações.
O q eu ainda ñ realizei me mantem vivo. E o q eu ja fiz me faz feliz.
Nossa, essa frase vai parar no Guines!!!!
Seu menino malcriado,ainda falta mto (?) tempo para os meus sessenta anos tá?
Mas uma coisinha: a maior frustação q não carrego? eu sou mae.
De td q fiz na vida e me fez a pessoa mais feliz? Ser mãe.
O q ainda ñ fiz q me mantém viva? Fazer vc se convencer q deve escrever um livro, pois com certeza, a cadeira nº1 da ABL será sua!!!!!!!!!!!!!!!!
porra ernani, eu fico um tempo sem vir aqui e acabo sempre me surpreendendo com algum texto ótimo que me faz pensar em várias coisas....principalmente essa parte '' invejaria outra vez a única coisa que sempre invejo nas pessoas: as ideias brilhantes para criar coisas emocionantes e incomparáveis.''
sempre invejo isso. e as vezes sinto isso lendo teus textos hehehehe
;)
Velhota, sua coruja....
Porra, Ana.... Valeu, menina! Tô curtindo muito sua bagunça na ilha....
bjoca
Caracaaaaaaaaaaaa!
muito bom, muito mesmoooooo!
odeio não ver o mundo como vc vê!
e copiando o primeiro comentario:
a única coisa que sempre invejo (saudavelmente) no Ernani Lemos: as ideias brilhantes para criar coisas emocionantes e incomparáveis.
ps:. não sei se é tão saudavelmente assim...kkkkkkkkkk
Hehehe! Van, vc me mata de rir! FAlamos muito de vc durante a visita da Mirelle na outra semana. Agora vc é quem tem que vir visitar... ;)
bjos
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