Eles se sentaram e ouviram a campainha de alerta. Foi o aviso final antes do fechamento que os deixaria sem saída. Com o vagão em movimento, enxergaram a própria solidão. As mãos dela falavam nervosas, agitadas. Vestiam luvas cinzas bem tricotadas, de um tipo que raramente se vê em Londres. Provavelmente foram presente da mãe ou de uma tia querida no Brasil. Em contraste, as mãos dele, nuas, pareciam não ter recebido carinho nos últimos tempos. Geladas, com unhas compridas e pele seca, diziam com calma palavras tristes.
Ele falava do início difícil daquela jornada que começara há mais tempo do que era possível lembrar no momento. E, embora não desse pra recordar a data, os detalhes passavam em alta definição em cada uma das janelas do trem que corria pelo túnel escuro sem prestar anteção à conversa deles. Incapazes de entender, a locomotiva e os passageiros gringos perderam a narração dos primeiros meses daquela aventura bonita que, em cada segundo importante, foi vivida a dois.
Ela reconhecia a proteção e o cuidado que recebeu dele naqueles dias incertos. Por um momento, ao lembrar do olhar cúmplice que trocou com ele quando passaram frio juntos pela primeira vez na neve, as mãos dela sorriram. E era um sorriso tão sincero, que nem as luvas cinzas de tricô conseguiram esconder. Ela sorria por cima das luvas e sorria por cima de todos os problemas que chegaram com o tempo. Se o futuro daquela relação se tornou improvável, esquecer o passado alegre seria impossível.
O trem parou na estação e eles perderam mais uma chance de escapar pelas portas abertas. Em vez disso, seguiram falando honestamente no meio do silêncio mentiroso dos demais. Ele lembrou do quanto ficou feliz quando ela conseguiu aquele emprego bacana. Pra ele não era um problema continuar lavando pratos, desde que ela pudesse finalmente voltar a trabalhar em um escritório. Ela confessou que, se fosse ao contrário, teria ficado com um pouco de inveja. Mas também contou que, apesar do egoísmo, desejou todos os dias que ele estivesse no lugar dela. Vê-lo chegar em casa tão cansado e com as mãos machucadas a matava aos poucos e, à isso, ela preferia sofrer no lugar dele.
Eles se deram as mãos. As luvas dela enroscaram na pele ressecada dele, confirmando que aqueles corpos já não pertenciam mais um ao outro. Ao se tocarem, as mãos se calaram. Eu quis olhar pro alto pra ver o que diziam os rostos, mas, apesar da vontade, não tive coragem. Eles não sabiam que eu os entendia o tempo todo e agora já era tarde demais. Talvez, se eu os tivesse encarado no início, se eles não tivessem entrado no trem, se a porta não tivesse se fechado... essa poderia não ter sido a última viagem deles juntos.
Mais uma estação e o metrô parou. Ela levantou e seguiu para a porta. Ele alcançou a mão dela, mas os dedos escorregaram lentamente e lhe escaparam pela última vez. Quando a porta fechou novamente, uma lágrima pingou num dos dedos secos dele e escorreu com pressa pelos pulsos. Foi a primeira vez que vi uma mão chorar...





26 comentários:
Segurei a respiração em td o tempo. Daí suspirei. Soltei o ar q retive com medo de ler o final.
Agora, as palavras sumiram. Deu um branco total.
Só posso dizer: só vc mesmo para ver tts detalhes em cada cena, em cada olhar.
Estou emocionada e ainda meio q pasma, mas feliz por mais uma vez poder dizer com tds as letras: se pelo menos 10% dos homens no mundo td tivessem a sua capacidade de amar, ser homem, gente, marido, filho, irmão, amigo, espectador, um ombro, um colo, um ser humano dotado de tta emoção, com certeza tds nos viveríamos melhor.
Filho, a cada palavra sua te amo mais!!!
E essa ñ é a primeira vez que leio mais um conto e sinto um arrepio subir dos pés a cabeça, também ñ é a primeira vez que quase fecho o navegador e ñ comento por medo de acabar escrevendo bobagem, tamanha a bagunça de sentimentos e emoções q ficam minha cabeça, ñ é a primeira vez que te falo escreva um livro, ainda bem q ñ é a primeira vez q leio o q vc escreve, quanta coisa eu teria perdido, ñ foi a primeira vez q quase ñ consegui ler devido aos olhos embaçados, mas foi a primeira vez que ao ler vi como vc as mãos chorarem, super abraço e q no ano q vem tenhamos muitas primeiras vezes, tudo de melhor pra nós todos.
Minha velha, essa foi provavelmente a cena mais triste que já presenciei no metrô. Uma pena mesmo. Mas, no fim, são essas coisas que rendem boas histórias. Valeu, velhota!! Bjoca
Fernando, meu amigo!! Gosto demais de te ver por aqui compartilhando as emoções da vida comigo. Que tenhamos milhares de primeiras vezes e - mais importante - que saibamos apreciá-las. Abração e feliz ano pra vc, companheiro!
Oi. Já li há alguns minutos e fiquei pensando, pensando....continuo..têm pessoas que fazem parte do nosso passado, ajudam a construr o presente e de alguma forma tb contribuirão para o futuro, mesmo não fazendo parte deste, é triste, um processo nem sempre necessário, é verdade, mas....viajei, rs. Obrigada por despertar esses sentimentos. Tenha um 2012 muito próspero em todos os sentidos de amor, felicidade e um montão de coisas que deseja. Bjs
Verinha, foi mais ou menos isso que pensei várias vezes depois daquele dia. Vez ou outra me pego imaginando como será a vida daqueles dois a partir de agora... um sempre vai fazer parte da história do outro. Enfim... Tudo de ótimo pra gente, querida! Valeu pela companhia esse ano!
bjos
Sem palavras, mr. Lemos...sem palavras!
Haha! Espero que isso não seja ruim, vizinha! Bjos
Ja nao eh a primeira vez que venho no aqui, mas a primeira vez que comento: Lindo de mais!!
Ja passei por situacao parecida e os detalhes e a forma como escreve. Virei tua fa!!
Nao pare nunca de escrever, please!
Salve salve Liza! Fã nada, vc vai virar é uma boa companheira por aqui. Pena que vc tenha passado por isso, mas a gente cresce com os tombos, né? Sobre parar de escrever, fica tranquila. Enquanto a cabeça funcionar e a mao mexer, eu continuo na ativa... Thanks pela visita. Bjs
Fiquei aqui imaginando a cena tão bem descrita... e as emoções vistas por você nas mãos. É maravilhoso quando podemos nos expressar com outras linguagens que não a da fala...
Bjooo
Verdade, Bel! E às vezes as alternativas sao mais eficazes... Bjos
Mais uma coisa: só quem tem mãos mágicas como a sua, q conseguem dedilhar td q seus olhos, sensibilidade e sentimentos veem, ou sentem, pode ter ts seguidores, tts fãs, tts pessoas maravilhosas acompanhando ontem, hj e sempre td aquilo q vc escreve.
Meu filho, siga o desejo de tds!!!!
Q em 2012 sejamos tds presenteados pelo livro tão esperado. E q sua inspiração continue a servir de lição a tds nós. Bjs
Nossa, esqueci algo simples mas especial:
FELIZ ANO NOVO A TDS, E Q NOSSO MADRUGADOR CONTINUE A NOS PRESENTEAR CADA VEZ MAIS!!!!!!!!!
Hahaha! Vc é uma figura, dona coruja!! Que 2012 seja um ano bom!! Love u!
Sério que você presenciou de camarote um casal terminando? E sério que ela terminou com ele no trem?! Quanta tristeza pra um fim de ano.
Beijoca!
Esta história aconteceu com vc?
Como sempre escreve coisas maravilhosas de se lêr. bjão direto do Ceará.
Pior que é sério, Mari. E eu la com cara de pastel, como se não estivesse entendendo nada...
Paula, eu fui apenas testemunha. Thanks pela gentileza, querida! Um fim de ano porreta pra vcs aí.
Bjos
hauehiheuahiheia a loira nao entendeu o/
hehehehe... és uma figura!!!
Oi Ernani!
Um olhar atento e um coração sensível e aberto vê e traduz em poesia o que nem todos percebem. Lindo texto para tão triste final!
Passando para te desejar um 2012 super feliz com a Juliana e que cada dia do novo ano lhe traga muitos motivos para vocês sorrirem. Muito amor, saúde e realizações!
UM FELIZ 2012!
Abração!
OI amiguinho de tão, tão distante. Pode deixar que qdo der um mergulho neste marzão envio boas energias pra vc.
Bjão.
Grande Valéria! Sempre compartilhando palavras bonitas! Valeu pela companhia esse ano! Que vc e sua família sejam felizes! Bjos e obrigado!!
Paula, tô me sentindo o Shrek... hehehe. Um mergulho nesse mar cearense é um presente sensacional! Thanks, querida! bjo
Sempre passo por aqui e nunca comentei, daí que hoje não deu, tive que dizer que é um prazer ler seus textos, como disse a mamãe, você é verdadeiramente um ser humano dotado de muita emoção, e que emociona a gente! Admiro muito! Abraço!
ah, eu nao vou ficar aqui disputando corujice com a dona vera e com todos esses inteligentes e sensiveis fãs que vc tem.
texto lindo da porra, irmao!
Salve salve Mile!! Emoção tenho eu quando vejo tanta gente boa aparecendo pra compartilhar as coisas aqui. Valeu mesmo!!
Irmã, quem sou eu pra ter fãs? Com sorte eu vou colecionando amigos aqui!! Thanks, lindona!
bjocas
Postar um comentário