Foi mais ou menos nessa mesma época que começou a fazer sucesso o que chamavam de pagode. Juntavam lá quatro ou cinco amigos, criavam um estilo visual pra marcar, como um par de óculos escuros na cabeça careca, e cantavam letras românticas ou engraçadas. As músicas eram geralmente parecidas - e eram ruins - mas pegavam com força porque faziam dançar ou faziam chorar. As meninas ficavam apaixonadas pelos artistas e dançavam animadas enquanto os meninos viam os passos das colegas e se apaixonavam por elas. E quando o romance não acontecia, eles ou elas iam pro canto suspirar com as músicas lentas e fracas que falavam de fins de relacionamento e de dores de corno em geral. Ainda não existia essa internet que temos hoje, mas o rádio dava conta de espalhar a porcaria e não havia uma só escola onde a moda não fosse a mesma.
Confesso que com os anos morri de saudade dos meus amigos daquela época e por vezes me escondi pra ouvir, sozinho e com o coração apertado, alguns dos terríveis pagodes antigos. O tempo passa e a gente aprende a selecionar melhor o que ouve, mas o som é uma experiência que marca a memória e, se há um momento bom para ser lembrado, ele é bem-vindo ainda que seja dançando música ruim.
Quando se espalhou essa coisa de rede social, tive a chance de reencontrar vários dos bons amigos de infância. Encontrar de verdade, ao vivo, como adultos bebendo propriamente num bar, e não tomando toddynho na sala de instrumentos da banda do colégio. O detalhe é que, tanto aqui quanto lá, contamos e rimos e nos divertimos com as mesmas situações. Não com a loira do banheiro ou com as anedotas de Joãozinho que faziam sucesso quando éramos crianças, mas com as nossas piadas internas e outros momentos que fizeram de nós e da nossa amizade algo único no mundo inteiro.
O que a internet também trouxe, além dos velhos amigos, foi um trator enorme que destruiu os muros de todos os colégios. As piadas internas ficaram sem proteção e o gosto da maioria pela música ruim ficou exposto. Isso não deveria ser um grande problema. Basta olhar pra trás e você vai perceber que faz isso desde sempre: rir de coisas bobas e dançar o som da moda. A internet, que reuniu a gente, trouxe ainda outra bobagem dos tempos de escola: as brigas sem motivo. Em ambas as épocas, independentemente da moda, os gostos são diferentes. Alguém sempre vai ter coragem de fugir do padrão e levantar a mão pra dizer ´Porra, a qualidade disso aí é fraca!´ ou então ´Puta piada sem graça! Já deu, né?´ Mas não tem jeito. Nós somos hoje a mesma pessoa que foi criança e que curtiu tudo isso anos atrás. E, se vivemos reclamando da vida dura, dos compromissos, das contas e do trabalho; e vez ou outra nos pegamos pensando em como tudo era mais fácil e melhor na infância, por que, afinal, nos proibiríamos de curtir o que de alguma forma nos causa sensações semelhantes às daquele tempo tão bom?
O mundo tem problemas demais e a gente precisa falar deles, explicá-los do melhor jeito possível para quem não entende e tentar resolvê-los juntos. Mas até o mais responsável dos jornais tem palavras cruzadas, charges, tirinhas e horóscopo. Porque não dá pra ser sério o tempo todo. E também não dá pra só ouvir música boa e nem é possível deixar de repetir o que achamos engraçado. Por mais bobo que seja. Toda pessoa precisa de um passatempo, um alívio pra fugir da chateação e do peso que é a vida. Tem gente que joga videogame, assiste ao futebol, UFC, novela, reallity show... Tem quem leia livros, estude, faça sexo, encha a cara, salte de paraquedas, pegue onda, corra maratona. Quando a gente faz essas coisas, não estamos necessariamente acrescentando algo à vida dos outros. E talvez também não estejamos acrescentando à nossa. Talvez. Mas precisamos desse escape da rotina, de um pouco de humor e descontração. É a nossa droga cotidiana. No momento em que pegamos o controle remoto, algo nos deixa no mesmo nível do viciado que fuma uma pedra na cracolândia: estamos todos no mesmo barco, procurando uma alucinação, um mundo paralelo para fugir por instantes da difícil realidade.
Talvez as pessoas nem repitam tanto assim as coisas na rede social. Acho que cada um só conta a piada uma única vez. O problema é que a gente quer ter tantos amigos que, se cada um disser a frase uma vez, vamos ter que ler a mesma porcaria 5 mil vezes. O que se tornará 10 mil, já que a outra metade dos amigos vai usar as mesmas palavras para reclamar do que foi dito. O tempo que a gente perde criticando o povo por se divertir poderia ser aproveitado para tratar dos problemas do mundo ou, na pior das hipóteses, para criticar quem é pago para resolvê-los.
Ninguém é imbecil por repetir a piada da moda. Estamos ficando, sim, menos interessantes. Vejo duas soluções pra mudar a chateação que vivemos online. A primeira é muito simples: desligar a porra do computador, esquecer os amigos tontos e ir cuidar da vida; A outra custa mais, mas o prêmio é melhor. É pensar um pouco antes de repetir tudo e se esforçar pra dizer coisas mais raras e inteligentes. Não precisa ser sério pra ser bacana. Piada já foi coisa boa, quando era original.
Pelo menos naquela época da escola, não eram as melhores garotas nem a pior música que faziam da nossa banda especial. Era a nossa personalidade.
PS: a foto lá em cima foi emprestada de um site colombiano. Na minha infância não existia máquina digital e custava caro revelar filme. Agora até a Kodak já faliu... Será que passou muito tempo? ;)





36 comentários:
Querido, imagino que parte da sua inspiração pra escrever esse texto tenha vindo do vídeo do Carlos Nascimento que eu acabei de assistir. Concordo com você, mas entendo o ponto dele, deve ser realmente deprimente para um intelectual (que, óbvio, não é o mu caso) ver assuntos desse calibre serem mais repercutidos que os abacaxis que ele noticia diariamente.
De qualquer forma, bom saber que no seu passado negro você curtia pagode ;)
Hahahaha!! Não era bem que eu curtia... eu me adaptava aos tempos, querida! Hehe. E tb não quis exatamente responder ao esporro do Nascimento em rede nacional. Ele é um cara com que eu já trabalhei por muito tempo e alguém que eu respeito muito. Na verdade, até concordo com a intenção dele. O que me chateia mesmo é ver os amigos se agredindo verbalmente no fb o tempo todo por tanta bobagem... E vc já voltou pra ilha, é? Vamos tomar seu vinho hoje. Thanks! Bjoca
Otimo posto como sempre e concordo com vc, eh ate chato ser serio o tempo todo e ficar criticando e agredindo uns aos outros, por causa de algumas piadinhas, mas isso e por causa da internet, pq no fundinho as pessoas so tem mais coragem por tras da tela do pc...rsrs
E eu tbm as vezes ate escuto uma musica ruim e principalmente qd a Bella curti e comeca a dancar, ai vira graca e rola ate uns videozinhos do tipo If I cath You do Michel Telo...rsrs (virus de uns dias no Brasil...rs)
Bjkas
Ah, Dany! Tá vendo só? Todo mundo tem um pézinho nesse terreno sombrio.... hehehe. Alegria, alegria. O povo perde muito tempo brigando! Bjo, querida!
Ernaniii, esse post não é mais necessário pois a LUIZA JA VOLTOU DO CANADA kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
HAHAHAHHAHAHA Tem tanta gente reclamando da Luiza no meu face, mas que é engraçado eh.. no primeiro dia tds riam com a Luiza, agora td mundo Fala bem do Repórter Carlos Nascimento. Eu não assisto BBB. E eu acho que eh td uma grande jogada de marketing. A Audiencia aumentou e a Luiza vendou 8 AP's de luxo em uma semana..
A verdade é q temos mtas coisas mais importantes para se preocupar.. mas eh bom dar um risadinha com piadinhas bobas. O fato de ser adulto nao qr dizer q perdemos o direito de nos divertir com coisas bobas neh. Bjs
Hahuahahuahuahuahua! Esse é o espírito, Camis! É assim mesmo, chato pra cacete, mas engraçado. Pra que deixar de rir? E digo mais, a gente tinha que inventar o próximo viral da internet... só pra sacanear... ;)
bjos
Muito próprio, aliás, como sempre. Em tempos de Luiza, navio, megagrávida, SOPA e o pintinho piu... a gente só tem mesmo duas opções: ou ignora tudo (como quase decidi fazer ontem) ou respira fundo, faz uma faxina nas assinaturas do FB e follows do twitter e aguenta algumas idiotices por amor a quem as disse. (ih, rimou...)
Escrevi mais, vai virar post já já!
Bjooo
Oba! Vou la ler. Até pq, não tenho a menor ideia do que seja pintinho piu... hehe!! Bjao
Pô, a Kodak faliu, o Bilú morreu, a Tina também. Tenho certeza de que o tiozinho cego da rampa do Gastão já deve ter uns 20 anos na sua nova vida encarnada. E o pulso ainda pulsa!!!!
p.s.: Nunca se esqueça do Marcelo do Gastão: "FORMARRRRR FIIIILLLAAAA"
Booooa, gorducha! E o Carlos? E a Elza??? E o bedel do Derville, como chamava mesmo? Cansei de tomar esporro dele... hehehehe.
Thanks pelas lembranças.
bjunda
Peraí! A Tina morreu???????
eu fico impressionada quando vejo amigos meus, na Australia, no Brasil e no japao, se repetindo sem parar.
As redes sociais e as franquias estao fazendo tudo ficar identico. Ser diferente ja nao da mais ibope.
:-(
O Lino...irmão do Roberto Leal...afe, será que ele ainda está vivo? Pq até o diretor do Derville da época morreu, num acidente em frente o hospital do Mandaqui, vc se lembra dele? Prof. José Roberto, que tb dava educação física?
Pois é, Inaie! Uma tristeza! Pior que o povo é inteligente, mas fica todo mundo com preguiça de pensar algo novo... :(
Gorducha, tava falando do Wagnao. Caramba, nao sobrou quase ninguem. Nao lembro desse diretor ai, nao. Acho que eu só frequentava os escaloes mais baixos da detenção escolar... Hehehe!
Bjs
Adorei o texto, e antes ainda de ficar claro do que você falava eu consegui chegar onde você escritor queria que eu chegasse.
Ultimamente tenho pensado que as pessoas perderiam bem menos tempo (e encheriam bem menos o meu saco) se ao invés de criticar BBBs da vida, assistissem o programa.
Beijos
PS. tenho passado por aqui, mas faz muito tempo que não consigo deixar um comentário
Ei querida! Saudade dos seus pitacos aqui. Thanks por voltar!!
É bem por aí mesmo... o povo acaba enchendo mais o saco da gente do que as próprias besteiras das quais eles reclamam. Enfim. Aguardemos as próximas... ;)
bjao pra família
putz, ja roubaram a minha piada e como eu sou interessante demais pra repetir piada alheia, deixo pra la.
é muita gente policiando a vida alheia, né não? ai se eu pego esse povo, ai ai ...
Um cardápio de reflexões compiladas em um único post. Brilhante, irmão...
Viajei no tempo com as piadas internas, ri aqui sozinho das lendas que percorriam Rio Claro, me enxerguei nos dias atuais perdendo tempo no Facebook e me aborrecendo com a quantidade de bobagens postadas.
Você falou tudo, estamos menos interessantes. O pagode e a piada velha sempre valem demais, pelos motivos que vc próprio citou, mas as pessoas tendem cada vez mais à inércia. As redes sociais nos trazem os amigos da infância, mas poucos a utilizam pra isso genuinamente. Em geral, transformam o mural num poço de excentricidades e irrelevâncias.
Meu contraponto diante de tudo isso é: já se foi o tempo em que precisávamos de um escape para aliviar a tensão da realidade. Hoje precisamos de mais batalhas para sairmos um pouco de frente do computador.
Abração, mestre, lição anotada. Mais uma.
Posso falar escrachado? rs
Como diz o ditado, "gosto é igual cu, cada um tem um!". Respeitar o gosto dos outros, é no mínimo, inteligente!
Besitos,
TL. ^^
Ah, irmã! Já sabia que eu ficaria suscetível a essa piada quando escrevi... hehe. Mas aqui pode repetir piada... eu não ligo! ;)
Irmão (olha o tamanho dessa família!), seu contraponto é que foi excelente! Parece que ninguém quer mais se engajar nas batalhas que valem a pena.... :( Mas deixemos de lado os lamentos e sentemos num bar pra falar das lendas urbanas de Rio Claro...
Tha, pode falar como quiser! Ainda mais quando fala claro assim! Resumiu perfeitamente o contexto!
bjos e abraços
hahahahahahahaha
tô pensando escrever um texto há uns cinco anos sobre isso. Sobre meus amigos de infância, na verdade, mas o Neguinho da Muleta e a Rosa Cata-Coquinho são parte indissociável desses momentos de moleque.
O post deve sair antes da Copa em 2014, aguarde!
Hahahuahuahuahua! Vc é um canalha convicto!!!! ;)
teu texto tá genial, como sempre uma delícia vir aqui gastar um tempinho do meu dia off (ai ai sou assalariada europeia agora de vez) e me entreter com opiniões interessantes - o melhor - NADA pedantes ou querendo ditar regra. parabéns.
mas, não resisti e vou mandar esse link pra te ajudar a relembrar da época da infância. pq né, letra de pagode choroso aos 10 anos, quem nunca?
http://501pagodes.tumblr.com/
Filhote, sou partidária da seguinte opinião: se ñ tem algo decente para falar, pense bem e feche boca.
O silencio às vezes vale mto mais, principalmente pqe te faz pensar em algo util para dizer, e deixar de ser papagaio - aliàs, na maioria das vezes, uma simples maritaca.
Só ñ deixo de falar besteiras o tempo td qdo vcs me ligam. Fico mais gagá do q já sou.
Mas pode ter certeza: os palhaços de antigamente nos fazia rirms mais q os atuais: os bambans do alto escalão.
bjs
PS. puts, vc e sua irmã me fazem sentir como uma peça de museu!!!!!
Ah post mais um belo post!!
Um saco quando um "palhacito" poe a piada crente que esta abafando e vem um estraga prazseres e joga a primeira pedra. Nao gostou le o proximo update, ignora ou melhor ainda bloqueia os uddates do individuo, ne nao?!
Gente amarga eh uoooo!!! :)
Pila,
Devo andar meio amargo ou as "piadas" estão bem sem graça pra mim.
Não tenho dado muitas risadas no FB.
Abs
Ana, sua assalariada europeia!! Valeu por dividir um pouquinho do seu dia off comigo! ;) E valeu mais ainda por compartilhar as vergonhas da infância... hehehehe. Vou ouvir depois, sozinho!
Velhota, vc é uma peça de museu. Mas é uma das melhores peças! ;) No geral, a ideia era essa mesma... o silêncio pode valer bem mais do que as palavras...
Pois é, Liza. Muito tempo perdido com coisa que não interessa. Uma pena pra eles. Valeu!
Pila, isso não é amargura, não. As piadas estão ruins mesmo! Mas veja que vc, meu mestre, não perde seu tempo lá reclamando da falta de criatividade dos outros. Esse é o bom exemplo!
bjos e abraços
Cadê o post de Sampa??? Vi no reader e ele num tá aqui!!!
(Mas eu já havia "curtido" no FB!)
Bjoo
Agora eu entendi boa parte das músicas que estão no seu PC!
Bom texto, amigo!
Ótimo texto!
Nunca entendi qual a necessidade das pessoas ficarem alfinetando seus 'amigos' por repetirem a piada da moda ou fazer comentários a determinados programas, por que agredir se podemos dialogar ou mostrar coisas mais interessantes, né? Também não entendo as correntes diárias, horoscopo,'piadas' machistas e preconceituosas, etc! Sei que quando vejo que estou incomodada demais com essas bobagens, é porque estou dedicando muito tempo ao fb!!!
Bel... ah, já falamos, né?! ;)
Sheiloca, e vc ficou pensando mal de mim esse tempo todo?? hehehe
Mile, exatamente!!! Ninguém para pra pensar que às vezes o que cansa não são as atitudes dos outros, mas sim as nossas. Enfim...
bjos
Quisera eu que na sua infância ja existisse facebook, pelo menos teria alguma chance de eu ver um vídeo seu tocando na fanfarra!! So vendo p acreditar heheheh
Te amo muito, músico!!
Ps: nem dei bola pra discussao de gostos musicais...
delícia, delicia, assim vc me mata...
hahahhahaha
Hahuahuahua. Japs, picareta! Como pode nao acreditar no seu marido? Já falei que tem testemunha. Anyway, vou comprar um trombone... ;) Love u.
Beta, que abuso!! ;-P Aguentar a música no facebook vá lá, mas cantar no blog é afronta!! Humpf!
bjos
Oiii, Sumi mas apareci!! Eu sempre passo por aki e nao consegui comentar pq eu termino de ler e tenho q ir dormir pra acordar cedo. Vida na ilha nao eh facil! Eu adoro seus textos!! Passa no meu blog e pega um selo. O seu blog eh super criativo e merece!! bjusssss
Ju minha florzinha, vc sabe q sua sogra q ama tto q jamais te mentiria. Pode apostar, esse genio eclético e diversificado já foi tocador de banda!!!!!!!!!!!
Por falar em tocador, e o violino? e a gaita de fole? e td encontrado pelo mundo afora?
Vc conseguiu achar um bom tapa ouvidos?
Putz filhote, será q tds morreram de desgosto por ñ ser comtemplado para ser a parideira dos genios q são meus filhos?
Ou será q eu ñ morri porque a comtemplada sou eu?
Afinal de contas, essa época foi umaa das mais felizes de minha vida: meus rebentos ao meu lado, e eu dando forças a td q quisessem fazer, sabendo o qto teriam de lembranças para contar aos netos.
Bjs
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